‘Ainda estamos na mesma história’: continuidade em Tolkien’s Lost Chaucer

por Eduardo Boheme

O italiano Giambattista Bodoni (1740–1813) foi um dos maiores tipógrafos da história, e o conjunto de tipos que leva seu sobrenome é um dos mais longevos e mais bonitos, com elegantes serifas em filete e alto contraste nos traços, tudo muito revolucionário na época. Bodoni não poderia prever que, mais de um século após sua morte, em 1926, Heinrich Jost faria um revival de suas fontes tipográficas para a fundição Bauer, de Frankfurt. Igualmente, Jost seria incapaz de imaginar que, em 2019, sua fonte Bauer Bodoni seria usada no título de um livro com dois protagonistas ingleses: Tolkien’s Lost Chaucer [‘O Chaucer Perdido de Tolkien’], escrito por John M. Bowers. A sensação de continuidade histórica que subjaz a fonte escolhida para o próprio título do livro está também na espinha dorsal do argumento de Bowers, que cuidadosamente estabelece pontos pelos quais a vida e a obra de Tolkien parecem se aproximar às de Chaucer.

Miniatura de Chaucer no manuscrito Ellesmere.

Geoffrey Chaucer (c.1340–1400) foi o expoente da literatura no período que, apesar da altíssima fragmentação linguística, é conhecido coletivamente como ‘Inglês Médio’. Sua obra mais notável foi Os Contos da Cantuária, mas, prolífico como era, deixou um legado literário imenso e inestimável. Por sua vez, Tolkien, apesar da merecida fama como estudioso de Inglês Antigo, foi também uma voz de peso na área de Inglês Médio, produzindo estudos fundamentais como Ancrene Wisse and Hali Meiðhad (1929), que Tom Shippey chamou de ‘o mais perfeito, embora não o mais conhecido’ trabalho acadêmico de Tolkien (Shippey, 2005: 45).

A história do livro Tolkien’s Lost Chaucer começa em 1922, quando a Oxford University Press planejou uma nova edição de textos selecionados de Chaucer para a coleção Clarendon English Series. O ‘Clarendon Chaucer’, como foi apelidado, teria como base, a princípio, a antiga edição feita por Walter W. Skeat (1835–1912): ela seria atualizada, os textos incluídos seriam reavaliados e acrescidos de glossário, introduções e notas, resultando num volume para estudantes e com preço acessível. Tolkien, professor da Universidade de Leeds à época, foi chamado para contribuir nesse projeto concebido por George Gordon e supervisionado por Kenneth Sisam.

Tolkien’s Lost Chaucer (os post-its são vendidos separadamente).

Mas o ‘Clarendon Chaucer’ nunca viu a luz do dia (para variar): atrasos e complicações fizeram com que o projeto fosse abandonado em 1928. A papelada que estava com Tolkien foi encaixotada e devolvida à Oxford University Press em 1951, para então ser remetida ao porão da editora onde esperou por longos anos, como uma preciosa Silmaril encerrada em Angband. Em 2012, essa caixa cinzenta foi encontrada, e é então que John M. Bowers entra na história. O professor da Universidade de Nevada conseguiu acesso ao material e empreendeu um estudo procurando responder à pergunta ‘O que fazer com este texto perdido e esquecido de um dos autores mais lidos da história da literatura?’ (Bowers, 2019: 40).

A resposta vem na forma dos oito capítulos, contando prólogo e conclusão, de Tolkien’s Lost Chaucer, em que Bowers nos conta mais sobre Walter Skeat, George Gordon, Kenneth Sisam e C.S. Lewis, quatro estudiosos de Chaucer cujos caminhos acabaram se cruzando com os de Tolkien; descreve-nos toda a história do projeto até o momento em que os papéis chegaram às suas mãos e examina manuscritos e impressos que trazem as anotações exageradamente minuciosas de Tolkien, um notório e autodeclarado “niggler”, isto é, alguém que presta atenção excessiva aos detalhes, como o personagem Niggle, do conto Leaf by Niggle (Folha de Cisco, no Brasil). Essa preocupação extrema com detalhes frequentemente resultava em textos incompletos e abandonados, e foi talvez a maior razão para o naufrágio do ‘Clarendon Chaucer’. Para Kenneth Sisam,

se [Tolkien] passasse trabalhando o mesmo tempo que dedica para elaborar desculpas, nós talvez faríamos algum progresso.
(citado em Bowers, 2019: 25)

Além desses capítulos em que Bowers examina o material do ‘Clarendon Chaucer’, ele também reserva espaço para explicar a relação de Tolkien com um dos Contos da Cantuária, ‘The Reeve’s Tale’, objeto de um conhecido, mas hoje ultrapassado, ensaio que Tolkien publicou em 1934, chamado ‘Chaucer as a Philologist: The Reeve’s Tale’. Ali, Tolkien argumenta que Chaucer, de maneira consciente e consistente, incorporou em seu conto o dialeto médio-inglês do norte. Sua discussão derivou parcialmente das reflexões para o ‘Clarendon Chaucer’.

Eowyn by Jenny Dolfen. Polychromo and white pastel on mid-tone ...
Éowyn, de Jenny Dolfen.

Já o penúltimo capítulo do livro, ‘Chaucer in Middle-earth’, traz à tona a sensação de continuidade mencionada no início deste texto: Bowers pondera sobre as afinidades biográficas entre Chaucer e Tolkien e sobre a maneira com que algumas obras do escritor medieval parecem ter virado ingredientes no caldeirão das estórias de Tolkien. Assim como o Heinrich Jost se serviu de fontes tipográficas de Bodoni, Tolkien também teria tomado elementos Chaucerianos e os colocado de volta ao trabalho em sua própria obra, como a questão da ganância em The Pardoner’s Tale, semelhante à de Thorin, e a representação de Criseida, de Troilus and Criseyde, que se assemelharia a Éowyn.

Procurar as supostas origens da obra tolkieniana é um ofício perigoso. Como o próprio Tolkien afirmou, essa tendência a ficar caçando fontes é comparável a um homem que, depois de comer algo, toma um remédio para induzir vômito e manda o conteúdo para análise (citado em Hammond e Scull, 2017: 1247). Bowers, no entanto, é bastante cuidadoso quanto a isso, e não tira de Tolkien a originalidade que lhe é devida. Também não se entrega a conjecturas infundadas, nem perde de vista a evidência necessária para embasar suas afirmações mais categóricas. Aliás, o rodapé com copiosas referências é uma das muitas qualidades de Tolkien’s Lost Chaucer.

*

Em 2017, os grandes tolkienistas Wayne G. Hammond e Christina Scull (2017: 223) supunham que Bowers publicaria o ‘Clarendon Chaucer’ de Tolkien, mas essa previsão não se concretizou. Assim, o leitor de Tolkien’s Lost Chaucer não encontrará, infelizmente, uma edição integral do projeto abandonado, mas sim um livro que descreve e examina o material descoberto, incorporando diversos trechos, com dois curtos apêndices. Uma vez superada a pequena frustração pela ausência de uma edição completa — e, pessoalmente, a frustração pela escassez reinante de fac-símiles dos originais —, o livro mostra o seu grande valor no rol de trabalhos acadêmicos fundamentais sobre Tolkien.

Bowers diz que o fato de ter lido Tolkien tardiamente o colocaria em desvantagem para desenvolver seu estudo. Mas a verdade é que, como respeitado medievalista, e já tendo publicado sobre Tolkien anteriormente, ele estava muitíssimo bem equipado para empreender seu formidável trabalho. A título de curiosidade, Bowers foi orientando de Norman Davis que, por sua vez, foi aluno, amigo e sucessor de Tolkien em Oxford. Uma vez mais, Tolkien’s Lost Chaucer traz continuidades inusitadas.

Nas escadarias de Cirith Ungol, Sam argumenta com Frodo que talvez eles estejam ainda na mesma história de Beren, que tomou da coroa de Morgoth uma Silmaril, a qual posteriormente ajudou Eärendil a encontrar as Terras Imortais, e cuja luz ficou engastada no frasco de Galadriel. Quando Sam pergunta ‘As grandes histórias não terminam nunca?’, Frodo responde que ‘Não, nunca terminam enquanto histórias. Mas as pessoas nelas vêm e vão quando seu papel acabou’ (Tolkien, 2019: 1016). Com seu livro, Bowers retoma e dá seguimento ao trabalho de mestres de diferentes ofícios: o papel de Chaucer, Tolkien, Bodoni, Jost e tantos outros nesta História acabou, mas sua herança (ou seria sua Silmaril?) conservará o brilho mesmo se permanecer por longas décadas encaixotada no fundo de um porão.


Ficha técnica
Tolkien’s Lost Chaucer
★★★★☆
Autor: John M. Bowers
Editora: Oxford University Press
Idioma: inglês
Ano: 2019
Páginas: 310
Capa dura, 24cm X 16cm


Obras citadas

Bowers, John M. 2019. Tolkien’s Lost Chaucer (Oxford: at the University Press)
Hammond, Wayne G; Christina Scull. 2017. The J.R.R. Tolkien Companion and Guide: Reader’s Guide (London: HarperCollins)
Shippey, Tom. 2005. The Road to Middle-earth, Revised Edition (London: HarperCollins)
Tolkien, J.R.R. 2019. O Senhor dos Anéis: As Duas Torres, trans. by Ronald Kyrmse (Rio de Janeiro: HarperCollins)


Eduardo Boheme é mestre em Tradução Literária pelo Trinity College da Universidade de Dublin


2 thoughts on “‘Ainda estamos na mesma história’: continuidade em Tolkien’s Lost Chaucer

  1. Olá Eduardo. Como sempre um texto de notável qualidade. O modo como você insere sua área principal de estudo, na análise da caligrafia utilizada no título do livro e o reflexo disso na própria concepção da obra é absolutamente sagaz. Parabéns! Além disso, sua crítica me tirou uma impressão que até então eu tinha sobre esta publicação. A de que ele trazia uma versão completa do ensaio do professor sobre Chaucer. Provavelmente a suposição de Hammond/Skull sobre a natureza da obra somada por uma série de comentário que pessoas fizeram antes da efetiva leitura, levaram a um entendimento de que aqui estava a ultima obra inédita de Tolkien; vejo agora que não é bem assim. Por fim, uma dúvida. Sabe se o citado texto Ancrene Wisse de Tolkien pode ser encontrado impresso de alguma forma mais fácil e acessível que a praticamente inexistente edição do anos 60? É uma pena que não tenha entrado no The Monsters and the Critics não? Novamente obrigado pela excelente critica! Um abraço.

  2. Oi, Viccenzo, obrigado pelo comentário!

    Realmente, eu gosto de ver as letras em tudo, mas é culpa delas, porque estão em todo lugar hahaha! Neste caso, falei um pouco sobre tipografia, que está mesmo visceralmente e historicamente ligada à caligrafia. Ambos são um hobby e uma paixão para mim.

    A revolução tipográfica que Bodoni (e um francês chamado Firmin Didot) promoveu foi muito importante, e foi o ápice de um processo muito longo de “independência” da tipografia em relação à caligrafia.

    Hoje nós temos uma infinidade de fontes para usar, e achei interessante que justamente essa foi usada para o título do livro; um tipo extremamente inovador na época, que fez as pessoas pensarem “Ué, o que é isso?”, da mesma forma que as pessoas olharam para O Senhor dos Anéis e pensaram “Ué, o que é isso?”

    Há dois textos do Tolkien sobre o Ancrene Wisse: esse que eu citei na resenha, o Ancrene Wisse and Hali Meiðhad, que é um texto acadêmico de 1929 com umas 30 páginas; e a edição que o Tolkien fez do Ancrene Wisse nos anos 30, com mais de 200 páginas. Vale lembrar que não é uma tradução do Ancrene Wisse, mas uma edição anotada.

    O ensaio é raro, mas há versões digitais circulando por aí. O livro é raríssimo, mas acredito que haja um “print on demand” pelo site da OUP, embora o preço seja pouco convidativo, com o dólar na altura em que está. De toda forma, há outras edições, de outros acadêmicos, disponíveis legalmente online. O Ancrene Wisse está escrito em um dialeto difícil do Inglês Médio, diferente de Chaucer, que é bastante compreensível com alguma anotação, e não é ficção, nem emocionante como Beowulf ou Sir Gawain and the Green Knight. O estudo que o Tolkien fez sobre ele é difícil de acompanhar (filólogo raiz o Tolkien!) então acho que teria pouco apelo com o público para ser publicado em The Monsters and the Critics. Mas é só uma suposição…

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