Tolkien e os Celtas

Por Erick Carvalho

Uma leitura mais atenta do legendário criado pelo professor Tolkien pode revelar suas inúmeras influências acadêmicas. Afinal, o Professor foi um bem conhecido filólogo e passou grande parte de sua vida cercado de textos literários medievais como Beowulf, poemas em inglês antigo, as sagas escandinavas etc.  No entanto, o que poucos sabem, e alguns até mesmo fazem confusão, é que Tolkien também teve uma influência céltica em suas obras, mesmo que isso fosse negado pelo próprio Tolkien.

Mas como desatar esse nó górdio, ou melhor dizendo, celta que amarra e confunde todos aqueles que tentam encontrar as outras referências não germânicas e não bíblicas da obra do professor? Bem, a resposta está em olhar para os detalhes, para as pistas deixadas nos seus textos e principalmente na própria biografia do Tolkien.

O Livro Vermelho de Hergest de Tolkien. Sua “Biblioteca Céltica” foi doada à Universidade de Oxford em 1959.
Fotografia: Eduardo Boheme

Afinal, segundo o que sabemos da vida dele, ainda na infância, Tolkien se apaixonou pela filologia quando ele, um menino inglês vivendo em Birmingham, enxergava as placas nos trens em uma língua misteriosa e céltica, conhecida popularmente como o galês, a orgulhosa e vocalicamente carente língua do País de Gales. Talvez ali tenha começado a influência céltica das obras de Tolkien.

E nós dizemos “talvez” por uma questão muito simples. Tolkien publicamente negava as influências celtas de sua obra, abominando a estética céltica e querendo justificar a todo custo sua visão anglo-saxã do legendário ou até mesmo da sua vida acadêmica, por assim dizer. E esse distanciamento que relegou a cultura celta a um segundo ou mesmo terceiro lugar na sua lista de influências literárias e acadêmicas tem uma explicação, é claro.

Queremos ressaltar essa questão, pois é a partir dela que o legendário é estruturado do ponto de vista histórico, como um local de experimentações e rearranjos pessoais do professor Tolkien para as dúvidas e fragmentações apresentadas por seu corpus filológico, literário e histórico cotidiano de trabalho acadêmico. Ou seja, nas fontes escandinavas, Tolkien encontrava material organizado o suficiente para trabalhar suas questões pessoais e avançar em seu projeto de mitologia inglesa, já nas fontes célticas era um pouco mais complicado, algo abertamente abominado pelo professor.

E por que era mais complicado? Bem, as respostas são muitas, na verdade. Para citar algumas, nós podemos, primeiramente, evidenciar a dificuldade de se trabalhar com a mitologia gaélica ou galesa sem transformá-la por sua visão tipicamente inglesa do assunto. Segundo, a própria dificuldade de se identificar o que é celta de verdade em meio à estética dos antigos celtas e a celticidade moderna, um debate que hoje parece ter encontrado certa compreensão no meio acadêmico, mas que, na época de Tolkien, não era tão amadurecido ainda. E um terceiro ponto, a própria imersão histórica do professor Tolkien em seu trabalho, visto que, já tendo trabalhado com algumas fontes de material céltico, reconhecia sua multiplicidade de versões, interpretações e peças soltas e sem resposta, o que desagradava, e muito, o professor.

Mas vamos direto ao ponto aqui. Onde Tolkien deixa clara essa visão de mundo celtofóbica? Qual referência, quais pistas ele deixou no seu material publicado que nos fornece a primeira evidência da aversão tolkieniana para com o celtismo em suas referências? A indicação vem do próprio punho do professor ao escrever uma carta em 1937 para Stanley Unwin, seu editor, em que ele argumenta ferozmente o fato de seu texto sobre o “Silmarillion” nada ter de céltico. Nas palavras dele:

[…] eles não são celtas! […] Conheço coisas célticas (muitas delas em seus idiomas originais, irlandês e galês), e sinto por elas uma certa aversão: em grande parte por sua irracionalidade fundamental. Elas têm cores vivas, mas são como uma janela de vitrais quebrada cujos pedaços são reunidos mais uma vez sem forma.

(TOLKIEN, 2006, p. 31)

Esse pequeno trecho retirado de suas cartas pessoais foi o suficiente para inúmeros leitores de Tolkien rejeitarem qualquer possível referência céltica nas obras do Professor e para haver tão poucos estudos de análise de elementos “célticos” no legendário, principalmente se compararmos com trabalhos que buscaram as referências escandinavas, finlandesas ou mesmo cristãs de sua obra.

Todavia, as referências estão lá. Misturadas, diluídas no seu próprio imaginário inglês, anglo-saxão e celtofóbico, mas estão lá. Nesse sentido, isso promove uma confusão tremenda nas pessoas que confundem a cultura celta com a germânica ou mesmo que gostam de levar tudo o que um autor escreve sobre si ao pé da letra. Para todos os sentidos, esmiuçar as referências célticas de Tolkien é tão complicado como entender até mesmo as diferentes concepções do termo celta ao longo da História. E o Professor tem lá sua boa dose de culpa ao criar essas barreiras.

Claro que as barreiras criadas por Tolkien têm um verniz acadêmico bem razoável, mas têm uma camada de orgulho inglês bem visível também. Em uma carta também para Unwin, em 1945, ele ainda relembra o diálogo de 1937 sobre a possível publicação de O Silmarillion e diz ao seu interlocutor que a opinião da editoração permitia que a obra possuísse “uma certa beleza, mas do tipo ‘celta’ irritante aos anglo-saxões.“ (TOLKIEN, 2006, p. 113). Ele concorda com a decisão (em parte porque queria persuadir o interlocutor a publicar o livro) e humildemente lamenta o fato de não ser um anglo-saxão de verdade, embora, como bem sabemos por sua biografia, era um inglês orgulhoso.

Mas o que esses pequenos relatos aqui e acolá querem dizer? Uma leitura superficial explicita a visão celtofóbica do Professor, que é evidente. Uma leitura mais profunda deixa claro que Tolkien tinha mais aversão às implicações que a denominação celta poderia ter ao se associar com sua obra do que a própria referência ao celtismo em si. Até mesmo porque Tolkien conhecia sobre os celtas, lia sobre os celtas e tinha um razoável entendimento de celticidades.

Celtic Myth, de John Howe

E isso é facilmente demonstrável por sua palestra proferida em 1955 intitulada English and Welsh [Inglês e Galês]. Nessa fala, Tolkien cunha uma expressão que, de certa forma, é cirúrgica para se analisar a confusão de se estudar o celtismo em suas diferentes formas que tanto intriga os pesquisadores hoje e causava a aversão acadêmica do professor quanto ao assunto. É ali que ele cunhou a expressão “sacola mágica” (Magic bag) que delimitava o que podemos chamar hoje de uma “nebulosa céltica”, ou seja, o excesso de referenciais de Memória que promovem uma imagem turva do celtismo contemporâneo.

Esse termo cunhado pelo Professor pode ser usado até hoje para identificar a confusão geral que as pessoas têm ao não só conectar o legendário como uma alegoria explícita do celtismo (o que é um claro equívoco), mas também para a própria incompreensão do que é a “cultura de memória céltica” no geral. Nas palavras do próprio Tolkien:

Muitas pessoas, talvez a maior parte das pessoas fora da pequena companhia dos grandes acadêmicos, do passado e presente, “Céltico” de qualquer forma é, não por menos, uma sacola mágica, onde qualquer coisa pode ser colocada e de onde quase qualquer coisa pode sair.

(TOLKIEN, 2006, pp. 186-187)[1]

Ou seja, no entendimento do Professor, a dificuldade de compreensão do celtismo estava basicamente no excesso de elementos, de referências, de apropriações, de disputas políticas de Memória etc. E tudo isso era profundamente avesso ao conhecimento acadêmico dele próprio baseado no material escandinavo, nos estereótipos acadêmicos ingleses e nas necessidades de seu próprio domínio catedrático.

“isso promove uma confusão tremenda nas pessoas que confundem a cultura celta com a germânica ou mesmo que gostam de levar tudo o que um autor escreve sobre si ao pé da letra.”

É por essa razão que ele evoca o sentido da “bolsa mágica” em que tudo cabe em sua definição de celtismo. Tolkien não entende as demandas desses grupos fora do aspecto linguístico técnico e formal, o que resultaria, em uma perspectiva contemporânea, na busca por políticas afirmativas ou de identidade. Bem verdade, Tolkien era um homem de seu tempo e insistir nessa questão seria anacrônico e injusto com o Professor. Afinal, ele nem sequer enxergava essas questões como válidas, do alto de sua visão paternalista inglesa ou mesmo “saxã” como ele define ao longo de sua análise sobre os ingleses e galeses.

No entanto, a língua galesa está ali, dentro do seu campo de conhecimento de maneira suficiente para influenciar a criação do idioma élfico conhecido como Sindarin, bem como as lendas galesas que possuem profundo paralelo com várias partes bem relevantes do legendário, como a “Balada de Leithian”, também conhecida como a história de Beren e Lúthien. O mundo céltico está presente e vivo em Tolkien.

Livros da biblioteca de Tolkien, incluindo alguns de língua irlandesa e galesa.
Reproduzido de McIlwaine, 2018, p. 242.

As referências estão lá. Seja no conhecimento acadêmico do próprio Tolkien, ou na sua também conhecida “biblioteca céltica” repleta de títulos clássicos ou mesmo em seu legendário. Basta um olhar mais atento e encontraremos todo um mundo celta dentro dos textos do professor Tolkien, um tesouro escondido em meio às referências mais conhecidas. Escondido até mesmo dos olhos do professor que costumava, por questões pessoais, negá-lo.


[1] To many, perhaps to most people outside the small company of the great scholars, past and present, ‘Celtic’ of any sort is, nonetheless, a magic bag, into which anything may be put, and out of which almost anything may come.


Obras citadas

Carpenter, Humphrey; Tolkien, Christopher (orgs.). As Cartas de J.R.R. Tolkien. Tradução: Gabriel Oliva Brum. Curitiba: Arte&Letra, 2006.

McIlwaine, Catherine. Tolkien: Maker of Middle-earth. Oxford: Bodleian Library, 2018.

Tolkien, J.R.R. “English and Welsh”. In: The Monsters and the Critics and Other Essays. London: HarperCollins, 2006.


Imagem destacada: Celtic Myth, John Howe.


Erick Carvalho é doutor em cultura celta e thain da Toca-RJ.


4 thoughts on “Tolkien e os Celtas

  1. Em primeiro lugar gostaria de parabeniza-lo por escrever. Eu entendi no texto que o Tolkien expressa que negava a cultura celta em seu trabalho e entendo que uma pessoa pode fazer isso inconscientemente sem intenção a priore, mas achei que ficou faltando algumas definições. Você diz que há uma dificuldade de definir o que é verdadeiro celta e celta moderno, o que seria essa diferença?
    Eu digo até por mim,eu nunca estudei cultura celta,então fico até perdido sem você colocar uma definição e essa diferença para guiar as pessoas, você mesmo citou que há incompreensão do que é a “cultura de memória céltica” no geral.
    Acho que ficaria legar que você citasse por exemplo palavras em Sindarin que derivam do Celta(irlândes,Gales), bem como explicar quais elementos estão presentes na “Balada de Leithian” mesmo que não estejam de forma explicita em um parágrafo, mas mostrar esses elementos. Até porque você diz que as referências estão lá.
    Eu não conhecia a expressão sacola mágica, usada dessa foram,achei interessante.

    1. Oi Patrick, tudo bem? Então, a falta de definições que você coloca aqui são questões além da proposta do texto, claro, mas eu as responderei aqui e espero sanar (algumas de) suas dúvidas.

      A indefinição sobre o que é “celta de verdade” é, obviamente uma questão em aberto. Pois o que existe, na verdade, é um grande debate sobre diferentes visões do celtismo, seja entre as populações da idade do ferro europeia ou entre os aspectos contemporâneos estruturados nas línguas e nas apropriações de caráter romântico a partir do século XVIII, bem como formação do nacionalismo enquanto movimento no século XIX. São celtas diferentes, por assim dizer.

      As implicações são também diferentes se analisarmos a relação entre o local e global e a especificidade de cada uma dessas regiões. Mas enfim, Essa dicotomia é absurdamente complexa, claro, e está no cerne dos estudos célticos nos últimos 25 anos, no mínimo. Abordo inclusive essa questão brevemente em minha tese de doutoramento e posso enviar para você o link se realmente for do interesse, mas a bibliografia é de fato vasta sobre isso.

      No campo moderno desse celtismo existe a incompreensão sobre a cultura de memória céltica, pois, ela se forma no amálgama entre diferentes tipos de memória seja uma de tipo comunicativo, mais direto sobre as relações sociais e outro cultural, baseada em práticas mais mitificadas e reificadas pela tradição inventada de cada região dita “céltica”.

      Concordo que obviamente seria legal falarmos mais das palavras em Sindarin ou mesmo das diversas influências célticas existentes nas obras de Tolkien. Acredite, são maiores do que os pequenos exemplos que citei. E na verdade, se você se interessou por saber mais coisas específicas pelo tema por meio desse texto, então ele cumpriu seu papel, claro. Quem sabe não publico outra coisa esmiuçando alguns desses exemplos?

      Afinal, a cadência do galês é a mesma do sindarin, e a lenda de Beren e Lúthien tem paralelo direto com a a história de Culhwch and Olwen, por exemplo. Isso sem contar outras questões da matéria da bretanha e similares. Os exemplos pedem algo bem mais relevante que uma nota de rodapé ou uma explicação em caixa de comentários, obviamente.

      Pois é isso.

      Fraterno abraço.

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