J.R.R. Tolkien e a Nota Tironiana

Eduardo Boheme

Depois do clamor popular e do sucesso estrondoso do meu último artigo sobre a ligatura st, eis-me aqui com outro texto hiperespecífico! Quem viu o teaser deste novo artigo no intervalo do torneio municipal de pebolim já sabe do que se trata: nada mais, nada menos do que o “et tironiano” em manuscritos de Tolkien.

O nome “tironiano” remete ao secretário do famoso orador Cícero (103–46 a.C.), Tirão, a quem se atribui a criação de uma série de sinais taquigráficos chamados de “notas tironianas”. A mais longeva delas foi o “et tironiano”, , parecido com um algarismo 7 que mergulha para baixo da linha de base. Ele é usado até hoje, especialmente naquela encantadora rocha musgosa e flutuante que os Elfos chamavam de “Ilha de Íverin”, mas que nós humanos chamamos de Irlanda. Lá, o uso de letras insulares é preservado com certo vigor, como se pode ver nesta inscrição num quartel da Garda Síochána, a polícia nacional. É muito comum vê-la também em placas de parquímetro e em tampas de metal dos correios e telégrafos.

O significado desse símbolo é simplesmente e (a conjunção aditiva), e ele fazia parte de um amplo arsenal de abreviaturas que os escribas medievais usavam para acelerar a escrita. De modo geral, na Inglaterra, o substituía as variações de and na língua vernácula, enquanto o & substituía o et em latim. Mas a Idade Média foi longuíssima e essa regra não era imutável. De fato, conforme o medievo avança, observa-se bastante variação, e o podia muito bem ser usado para o et latino.

Tolkien, como sabemos de tanto ouvir, era filólogo especializado na Idade Média inglesa, com vasto conhecimento de inglês antigo e médio. Além de outras coisas, isso significa que era parte do seu trabalho consultar manuscritos medievais ou edições de manuscritos e é certo que o cruzou seu caminho muitas e muitas vezes. Olhemos alguns manuscritos, começando por um ao qual Tolkien dedicou muito tempo, o do Êxodo em inglês antigo:

Bodleian Library MS. Junius 11, f.143

Ali na segunda linha você encontra um nome familiar, middangeard [Terra-média], mas repare, na primeira linha, a expressão FEOR ⁊ NEAH, “far and near”. Quem mais estaria ali senão a nota tironiana? Veja-a também reaparecer na nona linha.

A edição e a tradução do Êxodo feita por Tolkien só foi publicada postumamente, em 1981, e não há necessidade de discutir a recepção dela (se quiser mais informações, veja a página 34 do nosso ebook). O interessante aqui é olhar a transcrição de Tolkien:

Repare como, na primeira linha, Tolkien mantém o , mas na décima (equivalente à nona do manuscrito original) ele desdobra o sinal e escreve and por extenso. Curiosamente, mesmo na primeira linha, ele substitui a letra rúnica wynn, Ƿ, pelo mais familiar WHǷÆT ǷE > HWÆT WE — já que há um certo consenso de que essa letra é parecida demais com P, o que pode criar confusão.

Expandir abreviaturas e substituir letras potencialmente confusas é prática comum em edições de textos medievais, e a filóloga Joan Turville-Petre, ao preparar o material de Tolkien para publicação póstuma, preferiu normalizar o texto e banir a excêntrica nota tironiana da primeira linha para o desterro no rodapé.

Dando um salto no tempo, e passando de inglês antigo para inglês médio, vemos Tolkien rabiscando em um manuscrito do Senhor dos Anéis. Na margem, ele escreveu o seguinte:

as ani pecok he was proude ⁊ gai / pipen he couþe ⁊ fisshe ⁊ nettes bete

Trata-se de dois versos retirados logo do começo do “Reeve’s Tale”, o “Conto do Feitor” dos Contos da Cantuária, de Geoffrey Chaucer (c.1340–1400), texto ao qual Tolkien também dedicou muito estudo. Repare que ele coloca uma pequena barra horizontal na nota tironiana, característica que apareceu nos manuscritos ingleses no final do século XII, em pleno período do inglês médio. Uma curiosidade é que os dois principais manuscritos dos Contos da Cantuária (o Ellesmere e o Hengwrt, reproduzidos abaixo) não usam a abreviatura nesses versos, trazendo and por extenso.

California, Huntington Library MS EL 26 C 9, f.42r
National Library of Wales, Peniarth MS 392D, f.51v

O com a barra pode ser visto neste outro manuscrito: é o primeiro fólio do Ancrene Wisse, texto cujo estudo e edição continuam a render copiosas citações a Tolkien. Repare, em amarelo, o em uma frase inglesa e, em branco, o em uma frase latina.

Cambridge, CCC MS 402 f.1r

No artigo sobre a ligatura st, chamei a atenção para o fato de que Tolkien a usava e deixava de usar sem critérios aparentemente discerníveis. Acredito que algo parecido ocorra com a nota tironiana. Embora ela tenha um contexto medieval mais óbvio, não fica sempre claro por que Tolkien decide usá-la, mas, evidentemente, não há nada de anormal com seus caprichos.

Brevemente, olhemos para este envelope em que Tolkien escreveu em latim usando letras élficas, colocando ali no meio uma nota tironiana, no que me parece ser um verdadeiro aperto de mãos entre o Mundo Primário e o Secundário:

Na transcrição de Wayne G. Hammond e Christina Scull, aí está escrito “ab incursu et daemonio meridiano”, trecho do Salmo 90. No mesmo envelope, Tolkien coloca outros trechos do salmo, mas não em tengwar.

Por que Tolkien decidiu usar o ali, no meio das tengwar? Seria por influência das outras inscrições no envelope? Será que o sinal faz parte do modo latino de tengwar? É uma dúvida que vai tirar o seu sono assim como tem tirado o meu.

Algo curioso também ocorre neste manuscrito que Christopher e Priscilla deram de presente para o editor Christian Bourgois, reproduzido na edição francesa de As Aventuras de Tom Bombadil.1 O trecho em si é de O Senhor dos Anéis, capítulo “O Conselho de Elrond”.

Nessas quatro linhas de inglês moderno, Tolkien já nos bombardeia com caracteres antigos: temos , que é a abreviatura de “that”; a letra ƿ; o s alto; a nota tironiana com uma barra; a ligatura st e sp; a letra þ; a letra ð; as abreviaturas ĩ e ũ e a ligatura or (mais apropriadamente chamada de “biting”) em que o r se funde com uma letra bojuda, característica que começa a surgir no período pré-gótico. Quanta coisa acontecendo aí! Mas por que tudo isso? Será que ele estava querendo imitar as práticas de algum manuscrito em específico? Por que ele quis dar um aspecto mais “inglês médio” e não tanto “inglês antigo” para seu texto? Eu não sei e não acho que vá descobrir nos próximos anos.

Nem sempre somos capazes de descobrir o que Tolkien queria ou não queria, o que o influenciou ou deixou de influenciar, como ele enxergava a si mesmo e ao mundo, e por isso é tão difícil saber o que se passava na sua cabeça.

Às vezes, vemos textos em que o autor, querendo afirmar X, mas sem evidências para provar X, recorre ao artifício de dizer que “inconscientemente, Tolkien fez X”, como se tivéssemos meios absolutamente seguros de escrutinar os meandros de sua mente fervilhante! Se não sabemos com certeza suas motivações em um simples manuscrito, quão maiores não são nossas dúvidas sobre outros temas de sua ficção e quão maior não é nossa responsabilidade ao lidar com eles?

Encerro este texto abruptamente por aqui. Mas deixo um pequeno desafio abaixo e espero que você o ache divertido (quem não acharia?!).

Agora que você sabe mais sobre a ligatura st, a nota tironiana , e outros aspectos da caligrafia tolkieniana, já consegue olhar este belíssimo manuscrito do Conto dos Anos e identificar algumas peculiaridades. Então identifique as variações da ligatura st, da letra e, da letra a, da combinação or, e ache as notas tironianas, tentando explicar por que Tolkien ora usa e ora escreve and por extenso. E lembre-se: “não sei” é sempre uma resposta válida!


  1. Agradeço a Michaël Devaux por chamar minha atenção para este manuscrito.

Eduardo Boheme é mestre em Tradução Literária pelo Trinity College da Universidade de Dublin.

Apoie o Tolkienista comprando pelos links: https://tolkienista.com/apoie-o-site-tolkienista/


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s