Tolkien e a ligatura ST

Eduardo Boheme

Como o Natal se aproxima, resolvi falar de algo que tem tudo a ver com a data! Se você pensou “Ele vai falar sobre a ligatura st da palavra Christmas”, acertou, pois eu REALMENTE vou falar sobre a ligatura st conforme empregada por Tolkien! Se você imaginou qualquer outra coisa, errou.

Pensando bem, não tem muito a ver com o Natal… neste mesmo site, comentei que a caligrafia não era uma dos grandes temas nos estudos de Tolkien. Pois bem, o assunto de hoje — a ligatura st conforme usada por Tolkien — é um canto ainda mais restrito desse assunto. Específico demais? Paciência… E já vou me desculpando pelo texto menos acadêmico, mais ensaístico e serpenteante, mas felizmente curto.

O assunto das ligaturas em si — não limitado ao uso que Tolkien fez delas — é imenso. Paleógrafos estão sempre muito atentos a elas e as estudam com minúcia, pois dão importantes indícios de práticas dos escribas. Da sua parte, designers de tipo e tipógrafos também se esforçam para criá-las e usá-las judiciosamente.

Uma ligatura — você também encontrará a horrenda palavra “ligadura” — é a ligação entre duas letras formando um único grafo. Um exemplo é o ampersand ou “E comercial”, & (o nome em português foi certamente criado numa segunda-feira sem inspiração). A forma do ampersand deriva de uma ligatura entre as letras e e t, epitomada nesse grafo muito bonito e desafiador para designers de tipo, que procuram imprimir-lhe originalidade (se você olhar essa página do Google Fonts, verá como o ampersand pode adquirir contornos diferentes sem que fique, na maior parte das vezes, irreconhecível).

As ligaturas já estão aí há mais de mil anos e ajudavam os escribas a acelerar um pouco o moroso processo de escrever à mão, mas poucas daquelas encontradas em escritas antigas, medievais e renascentistas chegaram até nós com vitalidade. Por outro lado, outras foram criadas para atender a necessidades tipográficas, evitando colisões entre as letras, como a cabeçada entre o terminal do f e o pingo do i, e as cotoveladas de ff. A ligatura st foi uma das que chegaram até nós vinda de antiquíssima tradição manuscrita.

Ela era característica da Minúscula Carolíngia, escrita que atingiu o ápice nos séculos IX e X e que, em última análise, originou as minúsculas que usamos até hoje, após ter sido redescoberta pelos Humanistas no século XIV.

A Minúscula Carolíngia era clara, muito legível e seu arsenal de ligaturas era limitado, o que facilitava ainda mais a leitura. Mas o s carolíngio não era como o s que comumente usamos, redondo. Assemelhava-se mais a um f sem o braço, isto é, sem a barra, frequentemente com uma espora (um cotovelo) à esquerda da haste: ſ. O s como nós o usamos hoje foi reservado, muito depois, para a posição final, enquanto o ſ era usado no começo e no meio das palavras.

O ſ viveu por muito tempo na caligrafia e também resistiu por séculos na tipografia, mas hoje se restringe basicamente à existência em outra ligatura, o Eszett alemão, ß, que combina um ſ e um z (outros dizem que é um ſ e um s redondo). A ligatura st, portanto, assumia mais ou menos a forma da figura ao lado na Minúscula Carolíngia.

A mudança do ſ para o s na ligatura st (como na figura à esquerda) deve ter se dado, eu imagino, depois da criação da escrita que chamamos de “Itálica” (filha da Minúscula Humanista, que era, por sua vez, descendente da Minúscula Carolíngia). Contudo, ignorante que sou em paleografia renascentista, isso é só um palpite.

Mas podemos observar sua antiguidade neste exemplo em contexto tipográfico: a folha de rosto do maquiavélico O Príncipe, na primeira edição de 1532, impressa por Antonio Blado. Perceba o st com s redondo. Abaixo dela, um espécime de John de Beauchesne também mostra a ligatura, em contexto caligráfico, em 1575. Evidentemente, o st com s longo não sumiu do mapa, e continuou em uso por muito, muito tempo.

Esse longo preâmbulo nos leva à pergunta: ‘Tá, e Tolkien?’

Ora, Tolkien não era homem apenas de muitos escritos, mas também de muitas escritas, e sua letra alterou-se muito com o passar dos anos. Mas é interessante ver como a ligatura st, com o s redondo, aparece e desaparece de sua letra, sem nenhum critério discernível, como se vivesse em “variação livre” e brotasse espontaneamente em seus manuscritos, caligráficos ou não (com muito mais frequência nos primeiros, evidentemente). Nos manuscritos não caligráficos, talvez essa variação se deva à altíssima velocidade com que Tolkien escrevia na maior parte das vezes.

Não acho que seja possível descobrir o que o inspirou a usar essa ligatura tão frequentemente, se foi algum manuscrito ou algum texto impresso. Mas, de fato, a ligatura st é tão comum que talvez essa pergunta não seja nem relevante. Não me lembro de nenhum manuscrito medieval inglês (a especialidade de Tolkien) que utilize a ligatura st com o s redondo embora haja inúmeros com o ſ, então só posso conjecturar que essa inspiração talvez tenha sido tipográfica, e não manuscrita.

Mas chega de falação, vamos dar exemplos!

Vejamos este recorte de uma carta a Pauline Baynes, em 1949: indícios da ligatura st se revelam nas primeiras linhas da carta, com just e Christmas, em que a haste do t se curva à esquerda, querendo unir-se ao s. Mas perceba como o próprio s muda de forma! Já na linha de baixo, em last, a ligatura some, assim como em existence e stocks, reaparecendo depois em least.

Neste outro recorte, de 1937, também vemos formas diferentes do s, e uma ligatura inesperada de st na palavra history. E o s, de novo, com formas concorrentes, dentro da mesma palavra!

Em um ambiente já muito mais caligráfico, olhemos para a palavra restored neste rascunho preliminar do Senhor dos Anéis. O interessante aqui é que o gancho da ligatura parece ter sido acrescentado depois do s e do t, sendo um traço à parte e não um prolongamento do t.

As cartas escritas pelo Papai Noel também apresentam grandíssima variação, tanto “sincronicamente”, quando se observa uma única carta, quanto “diacronicamente”, quando se observa a letra do Papai Noel mudando um pouquinho ano após ano. Vocês mesmos podem exercitar os olhos, notando a ligatura st ou a ausência dela nessas (e outras) cartas do Papai Noel.

A questão fica ainda mais interessante se observarmos os manuscritos que Christopher copiou para a série The History of Middle-earth. A presença, a ausência e a variação no uso da ligatura st seria devido ao manuscrito original de Tolkien que Christopher copiou ou seria algo que o próprio Christopher colocou ou retirou à sua vontade? É possível descobrir checando os originais, então faço aqui um apelo ao Tolkien Estate: enviem-me, por favor, os manuscritos originais para eu olhar um negócio aqui rapidinho! (wink, wink)

Isso é tudo o que eu tenho a dizer por ora. Mas você não precisa parar por aí. Manuscritos de Tolkien podem ser encontrados em muitos livros, e esses exemplos aqui não são nem de longe representativos do vasto material que existe, e certamente não cobrem todas as ligaturas presentes nos seus escritos. Um exercício divertido é observar seus espécimes manuscritos — por exemplo em O Hobbit, Sr. Boaventura, Cartas do Papai Noel e em livros específicos sobre a arte de Tolkien — e notar características que você ache “excêntricas”, vendo se encontra alguma origem filológica, paleográfica, caligráfica e/ou tipográfica para elas.

Espero que vocês se divirtam tanto quanto eu procurando ligaturas e outras peculiaridades nos manuscritos tolkienianos, e fiquem ligados, pois a qualquer momento eu posso surgir com outro assunto aleatório e demasiadamente específico!



Eduardo Boheme é mestre em Tradução Literária pelo Trinity College da Universidade de Dublin


One thought on “Tolkien e a ligatura ST

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