Novos personagens e spot no BBB, “Os Anéis de Poder”: adaptação ou fanfic?

Cristina Casagrande

Theo é o nome do último personagem criado para a série O Senhor dos Anéis: os Anéis de Poder do Prime Video, serviço de vídeo sob demanda da Amazon, que foi anunciado nas redes sociais da série — pelo menos até a finalização deste texto. Se buscarmos o significado do termo em grego, “deus”, a priori, não se vê relação com as línguas ficcionais tolkienianas. Mas, a partir disso, vieram as mais diversas especulações: Theo poderia ser um nome encurtado de, por exemplo, Théoden, nome de um importante rei Rohir da Terceira Era; segundo uma teoria do Tolkien Guide, o personagem interpretado por Tyroe Muhafidin poderia ser o Rei Bruxo jovem, uma vez que “theo” [þeod], em inglês antigo, significa rei.

Tyroe Muhafidin com Theo

Theo aparece segurando a espada quebrada, que muitos interpretam como Gurthang, a infeliz espada de Túrin Turambar, personagem trágico de um dos três grandes contos dos Dias Antigos do legendário tolkieniano. Mas tudo isso é especulação. O que se sabe é que Theo é uma criação da série do Prime Video, e ainda não se sabe exatamente qual é essa espada. E ainda que seja Gurthang, outrora Anglachel, não há indícios sobre ela na Segunda Era, época em que a narrativa da adaptação será abordada.

Pouco tempo depois, na madrugada de 26 para de 27 de abril, a série fez uma ação publicitária local no Brasil, no intervalo do reality show Big Brother, um spot contendo a performance de quatro celebridades: Tiago Leifert, Antônio Fagundes, Maria Bethânia e Seu Jorge.

A atmosfera contém elementos contemporâneos, como abajures com lâmpadas elétricas, que, embora um pouco antigos, não estariam presentes na Segunda Era de Arda. Quase nada é tipicamente tolkieniano, nem mesmo o discurso dos personagens. Contudo, em alguns elementos do cenário e nos letterings do vídeo, é possível ver trechos espalhados do poema do Anel:

Três Anéis para os élficos reis sob o céu,
Sete para os Anãos em recinto rochoso,
Nove para os Homens, que a morte escolheu,
Um para o Senhor Sombrio no espaldar tenebroso
Na Terra de Mordor aonde a Sombra desceu.
Um Anel que a todos rege, Um Anel para achá-los,
Um Anel que a todos traz para na escuridão atá-los
Na Terra de Mordor aonde a Sombra desceu.

Isso posto, a incógnita sobre o que se deve esperar com a série Os Anéis de Poder é cada vez maior. Os leitores mais assíduos de Tolkien esperam enxergar elementos bem familiares às suas leituras, enquanto um público maior e mais leigo se entusiasma com clima de mistério gerado.

Diante dessas questões paira a dúvida colocada no título do texto: a série está mais para fanfic ou pode-se chamá-la de adaptação? A pesquisadora Maria Lucia Bandeira Vargas, em sua dissertação Do Fã Consumidor ao Fã Navegador-Autor: o Fenômeno Fanfiction pontua que:

necessidade de estender o contato com o universo ficcional por eles apreciado para além do material disponível, como o capítulo semanal de um seriado televisivo […] designa uma história fictícia, derivada de um determinado trabalho ficcional preexistente, escrita por um fã daquele original.

Já a adaptação, de acordo com o dicionário Houaiss é definida como:

[…] transposição de uma obra literária para outro gênero; […] ato ou efeito de converter uma obra escrita em outra forma de apresentação, mantendo-se ou não o gênero artístico da obra original e o meio de comunicação através do qual a obra é apresentada.

Ou seja, adaptação literária é, grosso modo, apresentar uma obra, geralmente escrita, com outra linguagem, independente do gênero e do meio em que for transposta, é uma forma de tradução. Já a fanfiction é uma forma de um entusiasta de uma obra estender um universo criado previamente e criar outra obra derivada disso. Seja uma fanfic amadora, feita por jovens estudantes, ou por empresários, ela guarda essas características. Mas nem por isso são necessariamente de qualidade baixa. Os universos expandidos das obras ficcionais, como Star Wars, estão aí para mostrar que isso pode ser levado de forma bastante profissional e promissora.

Contudo, a série Os Anéis de Poder apresentou-se com uma proposta diferente de um universo expandido ou uma fanfic. A princípio, se propôs a fazer uma produção televisiva, com base nos escritos da Segunda Era, recebendo o aval do Tolkien Estate, órgão que cuida do patrimônio de J.R.R. Tolkien. Conforme a sua sinopse:

A série traz às telas pela primeira vez as lendas heroicas da Segunda Era da história da Terra-média. Este drama épico se passa milhares de anos antes dos eventos de “O Hobbit” e “O Senhor dos Anéis” de J.R.R. Tolkien, e levará os espectadores de volta a uma era em que grandes poderes foram forjados, reinos ascenderam à glória e caíram em ruína, heróis improváveis foram testados, a esperança ficou pendurada pelo mais fino dos fios, e um dos maiores vilões que já saíram da caneta de Tolkien ameaçou cobrir todo o mundo na escuridão. Começando em um tempo de relativa paz, a série segue um elenco de personagens, tanto conhecidos quanto novos, enquanto eles enfrentam o temido ressurgimento do mal na Terra-média. Das profundezas mais escuras das Montanhas Nebulosas às majestosas florestas da capital élfica de Lindon, ao deslumbrante reino insular de Númenor, aos confins do mapa, esses reinos e personagens irão esculpir legados que viverão muito tempo depois deles.

Diante desse discurso, espera-se que não seja uma mera criação de fãs, inspiradas nos escritos de Tolkien, mas uma produção televisiva que toma a narrativa construída pelo autor como base e guia para sua produção. Espera-se que seja algo mais próximo de uma adaptação possível, ou seja, que haja a transposição de um texto escrito para outra forma de representação, no caso, a televisiva. Vale lembrar que toda adaptação tenha um quê de fanfic, porque sempre tem seus acréscimos, perdas, inserções e interpretações subjetivas.

Isso posto, é mister alertar que um dos obstáculos para se fazer uma adaptação da Segunda Era é que os escritos sobre ela são muito enxutos em relação aos da Primeira e da Terceira.

O Silmarillion é mais um compilado de mitologias condensadas, não um romance literário, com uma história extensa e pormenorizada, como é O Senhor dos Anéis.  Além disso, é uma obra póstuma, que Christopher Tolkien editou com base nos escritos do pai, com o mínimo de intervenção textual possível.

Tolkien tentou condensar sua mitologia escrita desde a época em que lutou na Primeira Guerra, em 1916–17 basicamente em dois momentos. Um em 1926, com o chamado Esboço da Mitologia, e outro em 1930, com o Quenta Noldorinwa, ou simplesmente o Quenta, com os escritos dos Dias Antigos. Depois disso, ele acabou interrompendo seus escritos com a fase de composição e edição de O Hobbit e principalmente de O Senhor dos Anéis, que foi publicado em 1954–55. Em meio à composição de O Senhor dos Anéis, Tolkien viu a necessidade de escrever sobre a Segunda Era, que preenchia esse espaço entre os Dias Antigos e a Guerra do Anel. Assim, a Segunda Era é a mais resumida das três.

Tolkien queria publicar O Silmarillion junto com O Senhor dos Anéis, assim, as pessoas entenderiam mais o que estava por trás dos seus escritos, mas a editora não aceitou. Isso fez com que ele escrevesse um resumo dos principais eventos e questões nos apêndices. De acordo com o anunciado pelo próprio Prime em um bate-papo para Vanity no Twitter, é justamente esse resumo que os produtores da série podem acessar sobre a Segunda Era — e nada mais. Mas há controvérsias. Alguns tolkienistas ainda conjecturam se eles não teriam pedido ao Estate o direito de alguns trechos do Silmarillion e outros livros póstumos. Afinal, uma das primeiras divulgações sobre a série foi um mapa da Segunda Era contenho a ilha de Númenor e outras regiões da Terra-média, além disso, na imagem do cartaz de revelação da data de estreia contém as Duas Árvores de Valinor ao fundo.

De qualquer forma, mesmo se houvesse os direitos do Silmarillion e de Contos Inacabados, esses ainda não seriam romances e apresentariam os relatos da Segunda Era de forma muito condensada. Portanto, invariavelmente, os roteiristas teriam de criar um “recheio” nesses relatos mitológicos para romanceá-los.

Na grande reportagem feita pela Vanity Fair antes do teaser trailer, foi levantado questionamento da parte dos showrunners, um tanto quanto ousado: “Podemos fazer disso um romance que Tolkien nunca escreveu e transformá-lo no maior evento da televisão que só poderia ter acontecido agora?”

Ou seja, a intenção é pegar os escritos enxutos da Segunda Era, presentes nos apêndices e transformá-los em um romance televisivo, numa história extensa e pormenorizada dos principais eventos e personagens elencados nos apêndices. É possível que usem também alguns capítulos-chaves de O Senhor dos Anéis.

De todo modo, a produção da série terá de estender, desenvolver e até mesmo criar fatos e personagens derivados dentro desse universo determinado. Portanto, é uma adaptação que requer um preenchimento significativo à la fanfiction.

Sendo assim, para estar o mais próximo de Tolkien, seria necessário manter a essência da obra e também os pontos centrais do enredo, que envolvem personagens, locais e acontecimentos.

Quanto à essência, seria a busca pelo sentido da obra. Mas como visualizar de forma objetiva o tal do sentido? Em Sobre Estória de Fadas, a resposta estaria a terceira pergunta que o ensaísta faz: para que servem as estórias de fadas? Tolkien define quatro elementos: fantasia (um Mundo Subcriado com novas qualidades, o mais verossímil possível, ou seja, sem abusar da magia, que deve estar em conformidade com a natureza daquele universo); recuperação (proporcionar que enxerguemos a nossa própria realidade, tendo um distanciamento dela por meio da fantasia); escape (diferente do escapismo, faz-nos encontrar saídas das prisões do Mundo Primário); consolação, ou seja, a eucatástrofe, em que está presente a esperança e a confiança na Providência de um final feliz, ainda que não definitivo nesta vida, mas que ecoa para a eternidade. É importante acrescentar nessa questão da essência o tema central do legendário: a morte e a imortalidade; sem deixar de mencionar outros temas adjacentes: a queda e a máquina.

Mas ter isso não basta: muitas outras obras de outros autores podem trazer esses elementos e não configurar Tolkien. É necessário ter um bom caldo do enredo, dos personagens descritos pelo autor, para que seja possível identificar que isso é uma obra de Tolkien transformada para a televisão. Como uma boa tradução, com critério e coerência nas escolhas previamente definidas.

Existem pontos cruciais que não convém faltar nos relatos da Segunda Era. Para citar alguns:

  • A ascensão da Ilha de Númenor, que marca o início da Segunda Era.
  • A fundação dos reinos élficos de Lindon e de Eregion.
  • A forja dos Anéis de Poder e do Um Anel.
  • A corrupção dos Númenórianos, e a presença de Sauron.
  • A divisão entre os Númenórianos, aqueles que seguiam as figuras dos reis corrompidos, tendo Ar-Phârazon como a expressão máxima da tirania, movido por Sauron, e os poucos que restaram ao lado dos Valar, chamados os Fiéis.
  • A questão do apego à vida no mundo material, ou seja, a inveja que os Númenórianos tinham pelos elfos por sua imortalidade. Lembrando que, para Eru, a mortalidade dos Homens era uma dádiva.
  • Também pode aparecer a formação dos reinos de Gondor e Arnor no Exílio.
  • Finalmente, a queda de Númenor e a Guerra da Última Aliança de Elfos e Homens, culminando com a derrota de Sauron, marcando o fim da Segunda Era.

A produção da série já avisou que vai haver uma compressão temporal, ou seja, alguns personagens que só apareceriam centenas de anos mais tarde vão conviver com outros que aparecem antes. É um recurso necessário para uma adaptação como essa, embora exija bastante cuidado para não desconfigurar a história de partida.

Agora, basta e esperar as cenas dos próximos capítulos. E em rede nacional e horário nobre.


Confira o vídeo sobre o tema no Canal Tolkienista:


Leia no site a tradução da primeira reportagem da Vanity Fair, por Lorena S. Ávila: https://tolkienista.com/2022/02/12/por-dentro-da-serie-os-aneis-de-poder-vanity-fair/


Obras citadas

Vargas, Maria Lucia Bandeira. Do fã consumidor ao fã navegador-autor: o fenômeno fanfiction [dissertação, 1-Jul-2005]. Disponível em: http://tede.upf.br/jspui/handle/tede/869 .

TOLKIEN, J.R.R. O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel. Tradução: Ronald Kyrmse. Rio de Janeiro: HarperCollins Brasil, 2019.


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Cristina Casagrande é doutoranda na Universidade de São Paulo e autora de A Amizade em O Senhor dos Anéis.

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