E se Tolkien lesse ‘Harry Potter’? Reconstruindo um mundo a partir dos vestígios

Eduardo Boheme

Temos documentado muito do que Tolkien gostava e não gostava de ler, mas, embora possamos especular sobre o que ele acharia de Harry Potter se tivesse tido a oportunidade de ler o livro, é evidente que nunca conseguiríamos provar nossas especulações. Mas isso não é tão importante para este texto, porque o título é só desculpa para falar de algo interessante. Perdão pelo clickbait, mas como você já chegou até aqui, leia o resto!

Há uma semelhança entre J.R.R. Tolkien e J.K. Rowling que merece ser apontada: ambos colocaram em suas obras-primas personagens que não têm participação direta na narrativa e, depois de uma ou poucas menções na estória, somem e deixam os leitores intrigados. O exemplo clássico em O Senhor dos Anéis é a Rainha Berúthiel, mencionada por Aragorn, que desaparece com a mesma rapidez com que surge. O leitor da época precisou esperar a publicação dos Contos Inacabados para descobrir mais sobre ela. J.K. Rowling criou vários personagens desse tipo, como por exemplo os muitos autores de livros didáticos em Harry Potter.

A diferença fundamental é que Tolkien costumava já ter uma história para esses personagens (cf. Tolkien 2020: 530–1 e a carta n.174), enquanto Rowling — não a estou criticando por isso, veja bem — em muitos casos parece não ter ido além do nome do personagem. Contudo, ela tem a vantagem de ainda estar viva (talvez não tão benquista quanto antes por alguns de seus leitores, mas isso é outra conversa) e em processo de expandir seu universo (uns talvez digam “exaurir seu universo”, mas isso também é outra conversa), de modo que o leitor tem ampla oportunidade de, futuramente, ouvir mais sobre esses personagens, como tem acontecido com Newt Scamander.

É a um desses personagens obscuros de Harry Potter que Tolkien possivelmente voltaria sua atenção caso chegasse ao sexto livro da série. Antes de dizer o nome do sujeito, explico o porquê.

Já fiz menção anterior (neste artigo e neste) ao papel de “reconstrutores” que os filólogos como Tolkien desempenham: eles se valem da evidência linguística e textual remanescente e procuram reconstruir o todo, resgatar o que se perdeu da língua, dos textos e das histórias, tentando dar sentido ao que sobrou. De quebra, a Filologia auxilia outras ciências como a Arqueologia e a História, que também a auxiliam. Esse exercício não exige apenas erudição, mas também imaginação. No livro The Ring of Words, os autores falam um pouco sobre como uma investigação etimológica pode levar a graus mais elevados de recriação (Gilliver, Marshal e Weiner 2006: 52):

Tentar compreender uma palavra enigmática exige habilidades linguísticas, mas a atividade em si leva o pesquisador ao reino mais amplo da história, ou da lenda (que é a história imaginada): requer a interação da imaginação com os fatos conhecidos. A reconstrução de palavras anda de mãos dadas com a recriação imaginativa do mundo perdido em que elas supostamente eram usadas — a recriação, para usar a memorável expressão cunhada por Tom Shippey, de uma “realidade asterisco”.

Embora eles estejam falando da reconstrução de fragmentos de língua, de palavras, o comentário pode ser estendido à restauração filológica de fragmentos de textos, na tentativa de recuperar a sua forma original. Nesse processo, o filólogo acaba vislumbrando a sociedade em que tais textos teriam sido escritos e transmitidos. Nada disso seria possível sem generoso quinhão imaginativo capaz de conjecturar os fatos perdidos com base nos fatos conhecidos.

Um exemplo do uso da imaginação para reconstruir textos está no poema em inglês médio Pearl. Estruturalmente complexo, o poema tem 101 estrofes de 12 versos, totalizando 1212 versos. Ou teria. Na verdade, o único manuscrito do poema que chegou até nós não tem 1212 versos, mas 1211. O verso 472 simplesmente não existe no manuscrito: é a única estrofe com 11 versos. Se a ausência é intencional ou se foi erro do escriba é assunto para os especialistas, mas o ponto é que alguns editores, como Sir Israel Gollancz, criaram um verso para fechar essa suposta lacuna; usaram a imaginação para conjecturar como o todo poderia ter sido. Na sua tradução de Pearl, Tolkien preferiu não tapar o buraco com um verso de sua própria lavra e recorreu à solução de outros editores, qual seja a de simplesmente indicar, com uma linha pontilhada, o lugar onde talvez um dia tenha existido um verso.

A reconstrução de textos medievais — tarefa que Tolkien cumpria investido de sua autoridade filológica — geralmente não se dá pela invenção de estrofes ou poemas completos: mesmo que as alterações sejam numerosas, precisam ser bem embasadas, passíveis de aprovação e refutação, e essas alterações frequentemente se restringem a uma única letra, por exemplo. Mas com alguma frequência Tolkien escrevia textos fictícios inteiros à guisa de reconstruções somente para fins literários (and for the fun of it!). É o caso de A Lenda de Sigurd e Gudrún e de outros exemplos que mencionarei adiante.

Por isso, tenho para mim que talvez ele se interessasse por um personagem de Harry Potter: Odo, o Herói.

Odo, até onde eu sei, aparece apenas no sexto livro e em uma breve menção no sétimo. No sexto livro, Hagrid e o professor Slughorn estão entoando uma canção triste sobre o moribundo Odo, da qual temos só uma quadrinha:

And Odo the hero, they bore him back home
To the place that he’d known as a lad,
They laid him to rest with his hat inside out
And his wand snapped in two, which was sad.
(Rowling 2005a: 456)

Na tradução de Lia Wyler (Rowling 2005b: 382), ‘E Odo o herói foi levado para casa / Para o lugar que jovem conhecera / E sepultado com o chapéu pelo avesso / E a varinha partida ao meio, que tristeza.

E é só. Odo retorna no sétimo livro, capítulo 8, em uma alusão à mesma canção (o que nos faz suspeitar que Rowling deve ter algum material inédito ou ideias sobre ele), mas desse personagem temos um vislumbre apenas. Mas Tolkien fazia misérias com vislumbres, como evidenciado pelos poemas do Homem da Lua em As Aventuras de Tom Bombadil.

Ilustração de Pauline Baynes para The Man in the Moon Came Down Too Soon.

The Man in the Moon Stayed Up Too Late — recitado com pequena variação por Frodo em O Senhor dos Anéis — e Why the Man in the Moon Came Down Too Soon são poemas cuja origem última são cantigas infantis reais, bem conhecidas na Inglaterra (respectivamente esta e esta).

O conteúdo dessas cantigas, da maneira que se apresentam, é “absurdo”. O que Tolkien fez foi tomar esses fragmentos e “reconstruir” uma história envolvendo o Homem da Lua e suas aventuras na Terra, fornecendo às cantigas uma explicação, de certa forma, e criando a sensação literária de que as versões que hoje fazem parte da tradição inglesa são formas estropiadas do que um dia foram. Assim, com poucos versinhos cada uma, ambas se tornaram poemas consideráveis, com treze e doze estrofes respectivamente e, no caso de The Man in the Moon Came Down Too Soon, com um complexo esquema rímico.

Quem sabe essa mesma curiosidade filológico-imaginativa não seria despertada pelo vislumbre da história que poderia ter sido, a história não contada de Odo, o Herói (que a propósito tem até um xará hobbit, Odo Pé-Soberbo).

Quem era Odo? Teria sido uma figura histórica, mítica, ou os dois? Como se tornou herói? Quem ou o quê o matou? O chapéu do avesso seria indício de um rito funerário em determinada comunidade? Com que outras histórias a dele se relaciona? É possível ter acesso ao resto da canção? Em que fontes manuscritas ou impressas ela estaria preservada, se é que não circula apenas oralmente? Há versões variantes?

Fora do mundo ficcional, são questões como essas que impelem a pesquisa do filólogo textual, embora na vida real o pesquisador possivelmente encontraria o texto em algum idioma abstruso, na margem de um manuscrito carcomido ou num retalho de pergaminho reaproveitado para reforçar a lombada de algum códice frouxo…

E se Tolkien, por fim, resolvesse ele mesmo fazer como fez com as cantigas infantis inglesas e “reconstruir” imaginativamente a canção de Odo? Não estou querendo colocá-lo como fanfiqueiro (até porque uma fanfic é metade fan e metade fic, e não tenho muita certeza de que Tolkien seria fã de Harry Potter). Mas, nesse cenário hipotético, fico a pensar qual seria a maneira tolkieniana de descrever os acontecimentos que levaram ao triste fim de Odo, o Herói. Ele ganharia algo de trágico? Ou de cômico? Seria uma longa balada com direito a dragões e tesouros? Seria uma cançãozinha adaptada a uma melodia preexistente?

Odo é um personagem de quem eu gostaria de saber mais. Não que eu precise de uma pentalogia cinematográfica sobre ele: ficaria satisfeito se a autora simplesmente completasse a canção. E penso, além disso, que o personagem estaria em boas mãos se J.K. Rowling pudesse entregá-lo a Tolkien. Estaria em melhores mãos, aliás, do que o filho de Harry Potter estava quando ela o entregou a John Tiffany e Jack Thorne para protagonizar aquele estranhíssimo livro A Criança Amaldiçoada. Mas isso também é outra conversa…


Obras citadas

Gilliver, Peter, Jeremy Marshall, and Edmund Weiner. 2006. The Ring of Words: Tolkien and the Oxford English Dictionary (Oxford: OUP)
Rowling, J.K. 2005a. Harry Potter and the Half-Blood Prince (London: Bloomsbury)
——. 2005b. Harry Potter e o Enigma do Príncipe, trans. by Lia Wyler (Rio de Janeiro: Rocco)
­­——. 2007. Harry Potter and the Deathly Hallows (London: Bloomsbury)
Tolkien, J.R.R. 2014. The Adventures of Tom Bombadil, ed. by Wayne G. Hammond and Christina Scull (London: HarperCollins)
——. 2020. Contos Inacabados de Númenor e da Terra-média, trans. by Ronald Kyrmse (Rio de Janeiro: HarperCollins Brasil)


Eduardo Boheme é mestre em Tradução Literária pelo Trinity College da Universidade de Dublin.


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