Tolkien, o gótico e um livro roubado

Por Eduardo Boheme

Em 5 de abril de 1995, em plena luz do dia, o prédio principal da biblioteca da Universidade de Uppsala, na Suécia, foi surpreendido com golpes de marreta quebrando a redoma de vidro onde era exibida parte do códice mais famoso do país: um bifolio e as capas do Codex Argenteus foram roubados. 

Um folio da Bíblia de Prata

Chamada também de ‘A Bíblia de Prata’ por causa de suas letras prateadas escritas em luxuoso pergaminho roxo,[1] o códice argênteo fazia parte da mais importante coleção de arte da Europa no século XVII (Kent, 2015: 74), pertencente à corte de Rodolfo II, na atual cidade de Praga. Em 1648, porém, ele foi afanado obtido por ordem da rainha Cristina da Suécia quando Praga foi tomada ao fim da Guerra dos Trinta Anos. O mais importante aqui, porém, é saber que o Codex Argenteus contém o mais bem preservado registro do gótico, a extinta língua falada pela tribo germânica dos godos.[2] Trata-se de uma cópia fragmentada dos evangelhos cristãos feita na Itália, no século VI, a partir de uma tradução do bispo ariano Vúlfilas feita dois séculos antes. Vúlfilas também desenvolveu, com base no grego, o alfabeto gótico, e é nesse alfabeto que estão escritas as magníficas letras do Codex Argenteus.

Joe Wright.
Reprodução de The Tolkien Family Album.

E o que Tolkien tem a ver com isso? O gótico, é sabido, ocupou um lugar privilegiado na mente do Professor, intrometendo-se em sua literatura, sua caligrafia, em sua vida pessoal e acadêmica. Ainda na escola, Tolkien comprou de um amigo uma cartilha de gótico escrita por Joseph Wright, o filólogo que seria seu tutor em Oxford, e a língua o fascinou. Pela primeira vez, escreveu Tolkien muitos anos depois a W.H. Auden (Carpenter, 2006: 213), ele estudava uma língua por puro amor: extinta e tão parcamente registrada, ela não tinha função prática, nem sequer como veículo de uma literatura cuja perda Tolkien lamentava (Tolkien, 2006: 191).

Lamentava, sim, mas isso só fortalecia seu ímpeto filológico no exercício de reconstrução da língua gótica e sua (possível) literatura. Assim, escrevia em gótico desde pequenos fragmentos, como inscrições que colocava em seus livros, e seu próprio sobrenome, Ronald Tolkien, vertido para Ruginwaldus Dwalakōneis (Carpenter, 2006: 357), até um poema completo, ‘Bagme Bloma’, incluído no raro livro Songs for the Philologists. De fato, esse poema de Tolkien é o único restante escrito em gótico, segundo Tom Shippey (2005: 31). O simples fato de Tolkien tê-lo escrito indica que a literatura gótica — perdida, mas presumida — manifestava-se com frequência nas conjecturas acadêmicas de Tolkien.

Em outro texto, Tom Shippey pondera justamente sobre a importância dessa literatura para Tolkien observando as questões de filologia gótica presentes nos exames dos bacharelandos de Oxford. Segundo ele, olhar exames é uma boa pista para descobrir o que os examinadores achavam importante. Quando Tolkien estava na banca examinadora, diz Shippey (2014: 28), as questões costumavam deixar o terreno meramente técnico/linguístico e passavam a incluir também elementos literários. Em 1932, quando a banca era formada por Tolkien, C.S. Lewis e E.V. Gordon, por exemplo, uma das questões que os alunos tinham que responder era a seguinte:

O metro em que a poesia gótica provavelmente teria sido escrita era idêntico, ou muito parecido, com o metro de Beowulf?

A resposta mais honesta, diz Shippey, seria: “Prezados examinadores, uma vez que nenhum verso de poesia gótica sobreviveu, eu não faço a menor ideia” (2014: 28). Na impossibilidade de responder honestamente, os alunos tinham que suar para satisfazer os exigentes examinadores.

A perda da literatura gótica não era, porém, a única coisa que Tolkien lamentava. Em 1973, ano em que morreu, seu amigo Padre Robert Murray presenciou o Professor dizer num almoço que ‘um dos grandes desastres da história europeia foi o fato de os godos terem se tornado arianos’, uma heresia para a igreja católica, da qual era fiel (citado em Hammond e Scull, 2017: 621). A conversão ao arianismo foi precisamente o que, para Tolkien, impediu o gótico de se tornar uma das línguas litúrgicas do Ocidente. Naquele momento, recordou Murray, Tolkien se levantou e declamou o Pai Nosso em gótico. Não foi a primeira vez.

Outro amigo de Tolkien, George Sayer, lembrou-se do Professor exorcizando um gravador também com a oração do Pai Nosso em gótico, logo antes de gravar trechos d’O Hobbit e d’O Senhor dos Anéis. A oração que Tolkien recitou é esta aqui abaixo, transcrita pelo próprio Tolkien nos anos de 1950.

‘Pai Nosso’ em gótico, transcrito por Tolkien. A reprodução aqui vai do início da oração até a palavra “pois” [teu é o reino etc.] (McIlwaine, 2018: 150).

O alfabeto usado é, evidentemente, aquele que o bispo Vúlfilas desenvolvera 1600 anos antes, e a oração é também encontrada na Bíblia de Prata (Uppsala, DG1, ff.4v-5r). Na última linha do folio 4v, com letras douradas num papel bonito muito apagadas, está o início da oração, que continua no folio 5r em letras que há muitos séculos foram prateadas.

‘Bíblia de Prata’, folio 4v. Na última linha, muito apagado, encontra-se o início do ‘Pai Nosso’ em língua gótica.

Segundo Drout (2007: 405) Tolkien certamente conhecia o Codex Argenteus, provavelmente pela edição fac-similar de 1927, e afirma que o códice talvez até o tenha influenciado. Drout nota inclusive que as letras góticas da Bíblia de Prata são ‘espantosamente similares’ [strikingly similar] a algumas letras do alfabeto que o Urso Polar do Norte criou, baseado nos desenhos dos gobelins, em As Cartas do Papai Noel. Uma carta escrita nesse alfabeto está reproduzida ao lado (Tolkien, 2012: 95). Não cabe a mim achar ou deixar de achar qualquer coisa, mas vejo essa semelhança como algo fortuito — e não muito espantoso —, mas dada a importância da língua para Tolkien, é muito razoável supor que a Bíblia de Prata o tenha impactado por outras vias.

De toda maneira, para Tolkien a língua gótica estava associada a uma perda irreparável. Disse ele em uma palestra que, ‘em se tratando dos godos, não se pode evitar lamentar, se não por aquilo que poderia ter sido, pelo menos por nossos registros extremamente escassos daquilo que foi […] o desaparecimento de sua tradição, sua literatura, sua história, e a maior parte de sua língua’ (citado em Hammond e Scull, 2017: 741).

Fragmentada como chegou até nós, contudo, a língua gótica ganhou muito em vitalidade com o entusiasmo e profissionalismo de Tolkien, e por isso talvez nem esteja assim tão morta. Para Tom Shippey (2014: 32), ‘o sentimento de perda é ubíquo na obra de Tolkien, tanto acadêmica quanto ficcional: a perda linguística, a perda cultural, a perda imaginativa. Repetidas vezes ele se põe a reparar essas perdas’.


No exato dia em que o roubo completou um mês, após um telefonema anônimo, o bifolio e as capas da Bíblia de Prata foram encontrados no guarda-volumes da Estação Central de Estocolmo. Hoje eles estão em exposição permanente na biblioteca da Universidade de Uppsala.

Um bifólio e as capas da Bíblia de Prata. Fotografia de Magnus Hjalmarsson.

[1] Henry Bradley (1888: 64), antigo supervisor de Tolkien no Oxford English Dictionary, afirma que o nome deriva da capa do códice, confeccionada em prata maciça a mando do então dono do manuscrito, o conde Magnus Gabriel De la Gardie.

[2] A palavra “gótico” adquiriu acepções distintas com o passar dos anos. Aqui, a referência é sempre relacionada à língua, literatura e tradição das tribos dos godos. Não se deve pensar, neste texto, na palavra gótica sendo usada para falar do Romance Gótico, nem do conjunto de escritas chamadas coletivamente de “góticas” (em inglês também conhecidas por blackletter).


Obras citadas

Bradley, Henry. 1888. The Story of the Goths from the earliest times to the end of the gothic dominion in Spain (New York: G.P. Putnam’s Sons).

Carpenter, Humphrey (ed.). 2006. The Letters of J.R.R. Tolkien (London: HarperCollins).

Drout, Michael D.C. 2007. ‘Manuscripts, Medieval’, in J.R.R. Tolkien Encyclopedia: scholarship and critical assessment, ed. by Michael D.C. Drout (New York: Routledge).

Hammond, Wayne G; Christina Scull. 2017. The J.R.R. Tolkien Companion and Guide: Reader’s Guide, 2 edn (London: HarperCollins).

Kent, Neil. 2015. A Concise History of Sweden (Cambridge: at the University Press).

McIlwaine, Catherine. 2018. Tolkien: Maker of Middle-earth (Oxford: Bodleian Library).

Shippey, Tom. 2005. The Road to Middle-earth, Revised Edition (London: HarperCollins).

______. 2014. ‘Goths and Romans in Tolkien’s imagination’, in J.R.R. Tolkien: the Forest and the City, ed. by Helen Conrad-O’Briain and Gerard Hynes (Dublin: Four Courts), pp.19–32. 

Tolkien, J.R.R. 2006. ‘English and Welsh’, in The Monsters and the Critics and Other Essays, ed. by Christopher Tolkien (London: HarperCollins).

______. 2012. Letters from Father Christmas, ed. by Baillie Tolkien (London: HarperCollins).


Eduardo Boheme é mestre em Tradução Literária pela Universidade de Dublin.

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