Como NÃO ler Tolkien

Cristina Casagrande

Uma das melhores maneiras de descobrir o que a gente quer é tendo consciência do que a gente não quer. Pensando nisso, eu resolvi dar cinco dicas de como não ler as obras de Tolkien. É claro que a minha intenção não é limitar a leitura de ninguém, ao contrário. Acho que, antes de tudo, a literatura deve ser prazerosa, e o leitor deve ser livre para fazer a sua justa interpretação da obra.

Por isso mesmo que o primeiro ponto que eu pensei que se deve evitar ao ler Tolkien é:

1. Não pense que você precisa dar conta de tudo de uma só vez.

Não leia Tolkien tentando querer saber o porquê de tudo numa tacada só. Isso é inviável, especialmente se tratando de Tolkien, são infinitos detalhes. Muito menos numa primeira (segunda, terceira, quarta…) leitura. Uma das coisas mais legais de Tolkien é isso: você sempre está aprendendo coisas novas, ele nunca para de nos surpreender.

Muitas pessoas desistem das leituras tolkienianas por isso, porque elas acham que têm de dar conta de tudo. Busque uma leitura prazerosa, faça perguntas que te tocam fundo sim, busque as respostas das coisas que te inquietam, mas não tente dar conta de tudo em detrimento do prazer da leitura.

2. Não fique caçando alegoria!

No “bingo” de conhecimento sobre Tolkien, sempre tem o item “diga não à alegoria” para você acertar. Não cabe aqui discorrer sobre o conceito de alegoria, mas explicando sucintamente: alegoria na literatura seria uma imposição do autor na intepretação do leitor sobre a obra.

O próprio Tolkien escreveu isso no prefácio da segunda edição de O Senhor dos Anéis:


“eu detesto cordialmente a alegoria em todas as suas manifestações e sempre a detestei desde que me tornei bastante velho e cauteloso para detectar sua presença. Prefiro muito a his­tória, verdadeira ou inventada, com sua variada aplicabilidade ao pensamento e à experiência dos leitores. Creio que muitos confundem ‘aplicabilidade’ com ‘alegoria’; mas uma reside na liberdade do leitor, e a outra, na dominação proposital do autor.”

Ou seja, é alegoria dizer que aquele personagem, aquele acontecimento, aquela época etc. se referem a uma única pessoa/época/acontecimento etc. do Mundo Primário, vulgarmente chamado de vida “real”. Por exemplo, dizer que a Guerra do Anel é uma alegoria da Primeira ou Segunda Guerra Mundial. Essa, é claro, pode ser uma das leituras, mas não a única. A Guerra do Anel é a Guerra do Anel, ela vale por si mesma. Tem relação com o Mundo Primário, outras guerras e situações adversas? Tem, mas ela não é subordinada a essas questões.

3. Não tente impor a sua visão sobre a obra.

Devemos ter a liberdade de ter as nossas próprias interpretações sobre qualquer obra literária, mas isso é bem diferente de querer impô-la aos demais. Seria contraditório. É mais uma interpretação e, se bem embasada, ela é válida. Mas ainda assim não pode ser considerada única e absoluta. É muito importante saber respeitar os leitores antigos e também estar abertos aos novos.

4. Não tente especular o sentido da obra de acordo com a biografia do autor.

Ler a biografia, o contexto histórico, as circunstâncias em que o autor escreveu a obra pode ajudar bastante em nossa análise. Mas é importante ter em mente que quem confirma o que a obra diz são os elementos presentes na própria obra. Nem mesmo o autor pode impor uma única visão sobre ela, aliás, o próprio Tolkien reconhece isso, como vimos na citação do prefácio da segunda edição de “O Senhor dos Anéis”. Afinal, segundo Tolkien, o autor, é apenas um subcriador, ele também é um leitor de sua própria narrativa.

5. Não encare como uma literatura delimitada apenas ao público infantil.

Pode parecer bobagem para alguns, mas infelizmente a nossa sociedade ainda acredita que contos de fadas, fantasia etc. é destinada ao público infantil. Mas uma coisa não implica a outra. Inclusive, o conteúdo da fantasia é muito mais profundamente assimilado pelas pessoas mais maduras.

Disse Tolkien no ensaio Sobre Estórias de Fadas:

“Se a estória de fadas, como um gênero, é digna de ser lida de alguma forma, ela é digna de ser escrita para (e lida por) adultos. Eles vão, é claro, colocar e tirar mais do que crianças conseguem.”

Confira o vídeo sobre o tema no canal Tolkienista: https://youtu.be/BCjupcsx4S8


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