Tolkien: as três dimensões da subcriação

por Ronald Kyrmse

Imaginemos por um instante dois cavalheiros:

Um deles é um conceituado acadêmico da tradicionalíssima Universidade de Oxford, na primeira metade do século XX. Trata-se de um professor de anglo-saxão (ou antigo inglês, o idioma falado na Inglaterra até o ano 1100), colaborador do Oxford English Dictionary, autor de diversos estudos eruditos sobre obras arcaicas da literatura britânica. Casou-se com sua namorada de juventude; tem quatro filhos e vive em uma modesta casa suburbana, de classe média. Passa as férias à beira-mar com a família. Sua rotina diária é composta de aulas, palestras, aplicação e correção de provas, pesquisa. Tem uma história pessoal de dificuldades e privações. Foi até vítima de preconceitos por ser católico numa Inglaterra protestante. É um burguês cuja única excentricidade quotidiana é a predileção por coletes de cores vivas. Fuma cachimbo. Sua dicção nem sempre é das mais claras, mesmo quando dá aulas.

Já o outro é o mais famoso autor de ficção fantástica de nossos tempos. É aquele cuja obra mais influenciou o gênero na segunda metade do século que passou; sua inspiração estende-se praticamente a todos os meios de expressão artística: a literatura, o cinema, as histórias em quadrinhos, a música… Soubemos que, manifestando seu entusiasmo pelas sagas heroicas, ele já chegou a sair a público trajando uma pele de urso, já chegou a declamar poemas épicos a altos brados. Milhões de leitores em todo o mundo conhecem os personagens — elfos, anãos, orques, dragões — que povoam suas histórias.

Como a vida é mais curiosa que qualquer obra de ficção, revela-se agora o que decerto já suspeitávamos. Os dois cavalheiros conviveram na mesma pessoa: John Ronald Reuel Tolkien (1892–1973). O JRRT cuja obra mais conhecida é O Senhor dos Anéis, que, no início dos anos 2000, foi transformado em filme, uma “trilogia” em livros e na tela, essa última ansiosamente aguardada por legiões de apreciadores. O Tolkien por quem a escritora de fantasia J.K. Rowling, autora dos livros de Harry Potter, admite ter sido influenciada. O J.R.R. Tolkien cuja obra tem sido mal compreendida principalmente por serem pouco (e portanto mal) compreendidos os motivos que o levaram a empenhar mais de cinquenta anos de sua vida a criar, refinar, multiplicar e criticar um complexíssimo conjunto de relatos sobre o mundo que é sua genial subcriação. Do conceito de subcriação falaremos logo adiante.

O mundo de Tolkien foi criado como consequência de certas forças que o impulsionaram, mas que durante a sua primeira juventude permaneceram latentes. Foi só em 1917 que, graças aos piolhos da França, essas ideias começaram a adquirir realidade palpável. Sim, graças aos piolhos: pois Ronald Tolkien, voltando da guerra com febre das trincheiras, transmitida por esses insetos, foi internado em um hospital na pátria. Lá eclodiram a um tempo seu gosto pela invenção de línguas e o desejo de criar uma mitologia para a Inglaterra. Começou a escrever O Livro dos Contos Perdidos, que inaugurou um universo de criação e resultou finalmente em O Silmarillion, nunca terminado em vida, o conjunto de todas as histórias — trágicas, heroicas, humanas, terríveis — reescritas muitas vezes, sob as mais variadas formas, quase como diferentes tradições de uma mesma lenda, até que o autor deixasse este mundo.

Segundo Tolkien, o artista que engendra um mundo completo pela força da imaginação torna-se um subcriador, como que um auxiliar da criação propriamente dita. Pois foi isso que ele próprio conseguiu. Como disse um comentarista de O Silmarillion, quando essa obra foi editada — postumamente, pelo filho de JRRT — um homem, em pouco mais de meio século, tornou-se o equivalente criativo de um povo.

‘o artista que engendra um mundo completo pela força da imaginação torna-se um subcriador

O Silmarillion começa — literalmente — na criação do mundo. Tolkien relata um mito de criação extremamente original, no qual a divindade (o Uno) faz soar inicialmente uma grande Música, que, em seguida, com a ajuda dos Guardiões do Mundo, se torna o Mundo que É, ao qual eles descem para regê-lo. Apenas essa visão do mundo tolkieniano deve bastar para nos dar uma ideia do quanto o autor realizou. Em suas próprias palavras, seu projeto era “produzir um corpo de lendas mais ou menos interligadas, que abrangesse desde o amplo e o cosmogônico até o nível do conto de fadas romântico — o maior apoiado no menor em contato com a terra, o menor sorvendo esplendor do vasto pano de fundo”. Os rascunhos e ensaios ocupam um volume dez vezes maior que o próprio O Silmarillion, do qual O Senhor dos Anéis, sua obra mais vastamente conhecida, representa apenas uma espécie de epílogo, o ocaso da Terceira Era.

O Senhor dos Anéis tem sua parte na incompreensão do público. Muito se disse de falso sobre esse livro. Ele não é: ficção científica; um livro infantil; uma alegoria da geopolítica da época; um livro machista (ou racista, conforme a linha do crítico); uma fábula maniqueísta.

O que O Senhor dos Anéis é:

· Um relato sobre o poder. O Um Anel representa o potencial para a dominação absoluta; é sabido que, se o poder corrompe, o poder absoluto o faz absolutamente.
· Um romance sobre o dever, a humildade, e como alguém pequeno e insignificante pode fazer muita diferença no mundo. O Portador do Anel é encarregado de levá-lo para sua destruição.
· Uma história de Demanda, o quest medieval. Os poderosos decidem uma missão para um grupo que representa todos os povos livres.
· Uma fantasia linguística. Tolkien disse que desejava descrever um mundo onde Elen síla lúmenn’ omentielvo fosse uma saudação comum. De fato, essa frase em alto-élfico significa “Uma estrela brilha sobre a hora do nosso encontro”.

Seu amigo C.S. Lewis disse que Tolkien “esteve dentro da língua”. Toda a sua obra está permeada do espírito filológico. Os gostos linguísticos do autor orientaram-no na criação das dezenas de idiomas usados em seu mundo: o quenya, ou alto-élfico, tem uma fonologia calcada no finlandês; o sindarin, ou élfico-cinzento, lembra o galês; a língua de Númenor faz pensar nas semíticas.

J.R.R. Tolkien subcriou um mundo verdadeiramente tridimensional: sua obra tem duração, amplitude e profundidade. A duração está explícita nos muitos milhares de anos que se passam desde a cosmogonia até os tempos de O Senhor dos Anéis, e a crônica desses anos lê-se com emoção. Os elfos, Primogênitos do Uno, semelhantes a nós, porém imortais, sobrevivem a todas as Eras do Mundo. A amplitude se revela na variedade de aspectos que o autor elaborou. Tolkien descreve os povos, seus idiomas, escritas, trajes e costumes; a geografia, a fauna e a flora, os mitos, a música, os calendários — a lista é infinda. Cada um destes aspectos é tratado com uma profundidade que confere à obra a substância daquilo que é real. Nenhum detalhe parece ser fortuito. Quando os personagens passam por uma montanha, ela não é meramente um cenário de papelão. Se ela tem um nome, este significa algo, e o significado remete a um evento que lá ocorreu, num tempo que a mitologia tolkieniana descreve com detalhes. Nem a cordilheira é uma pintura, nem os personagens bonecos, nem suas línguas sons desprovidos de sentido. Certamente, a maior parte do fascínio experimentado pelos leitores de Tolkien deriva do fato de que seu mundo demonstra essa consistência interna. Ele é verossímil. Essa subcriação é, ao mesmo tempo, diversa do nosso mundo e semelhante a ele. Tão diversa é, que nós, os leitores, com o prazer de uma viagem a uma região exótica, nos submergimos na sua maravilhosa estranheza. Caminhamos em suas paisagens, ouvimos sua gente e tememos genuinamente pelo destino do Portador do Anel. Mas ao mesmo tempo — curioso! — tão familiares nos parecem tantos aspectos desse universo que cremos na sua existência com algum teor de realidade. E o que é melhor: o que nele ocorre, por uma transferência analógica, nos ensina, consola e guia pelo nosso próprio mundo. É isso que temos a agradecer àquele cavalheiro.


Texto originalmente publicado no jornal Valor Econômico em maio de 2001 e revisado agora, em 2020.


Ronald Kyrmse é autor de Explicando Tolkien e tradutor de O Senhor dos Anéis e de outras obras de J.R.R. Tolkien para a HarperCollins Brasil.


3 thoughts on “Tolkien: as três dimensões da subcriação

  1. Obrigado por reproduzirem este meu texto. O que eu disse há quase vinte anos continua – cada vez mais! – verdadeiro. Tolkien muito nos ensina e consola, especialmente nestes dias extraordinários.

  2. Parabéns pelo texto mestre Ronald Kyrmse, gostei dessa noção tridimensional o que eu mais gosto da obra de Tolkien é justamente amplitude e profundidade da obra, um dos trechos que eu mais gosto que demonstram isso está na descrição da geografia e cultura de Númenor no livro Contos Inacabados a descrição daquela geografia simplesmente me fascinou, sobre as línguas a obra de Tolkien nos deixa extremamente curioso sobre as palavras que acabei comprando O curso de Sindarin. No quesito da duração temporalidade temos o Silmarillon meu livro predileto do autor que descreve desde a criação do mundo as três grandes eras descritas pelo autor e a passagem de tempo com os feitos de Melkor, as construções e mudança na geografia e cultura da primeira para terceira Era.

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