Muito além da fantasia: 20 anos do filme “O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel”

Cristina Casagrande

Você pode até não gostar de fantasia, mas se aprecia a sétima arte, dificilmente vai conseguir negar a importância e a qualidade da adaptação cinematográfica de O Senhor dos Anéis, com direção de Peter Jackson (2001–2003). Em 10 de dezembro de 2001, o primeiro filme da trilogia cinematográfica baseado na obra-prima de Tolkien, com direção de Peter Jackson, fez a sua pré-estreia no Odeon Leicester Square, em Londres. Nove dias depois, em 19 de dezembro, O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel estreava nas principais salas de cinema dos Estados Unidos. No Brasil, o filme foi lançado na virada do ano seguinte, em 1º de janeiro de 2002.

Fran Walsh and Peter Jackson!
Fran Walsh e Peter Jackson

Nós estamos acostumados a chamar o filme de “trilogia”, mas a verdade é que ele foi pensado e produzido como um filme só e publicado em três partes, à semelhança do livro escrito por Tolkien, que consiste em uma única obra, dividida em três volumes. Mas para que a película saísse como Jackson queria, ela teria muitas e muitas horas, e para isso, deveria ser dividia em três longas-metragens de, aproximadamente, três horas cada (quatro, se contar as versões estendidas). A primeira produtora que aceitou bancar o projeto, a Miramax, decidiu cortar as horas nas telas de dois longas-metragens para apenas um único filme, a fim de reduzir os custos. Jackson e sua esposa Fran Walsh não aceitaram a proposta e levaram o projeto a outra produtora, até que foram recebidos pela New Line Cinema, uma subsidiária independente da Warner, que decidiu não só bancar o projeto maior, como propor três longas-metragens da adaptação.

Antes da produção fílmica da New Line, houve outras adaptações de O Senhor dos Anéis. Uma das primeiras nunca chegou a se executada, mas é famosa pela reação negativa de Tolkien já em sua sinopse. A proposta era de Morton G. Zimmermann, que pretendia fazer uma animação sobre a obra. Em uma carta de 1958, Tolkien aponta as — segundo o crivo dele — inúmeras falhas do roteiro tais como, a falta de passagem do tempo com a mudança das estações, a ausência de tentações nos personagens (especialmente Galadriel), falta de representação dos termos, discursos e diálogos presentes no livro, dentre outras, incluindo a talvez mais problemática falha: a dificuldade de retratar seriamente o coração da história, “a jornada dos Portadores do Anel”.

Segundo Tom Shippey, em The Road to Middle-earth [A Estrada para a Terra-média], chama a atenção quando Tolkien fala, em sua crítica à sinopse de Zimmerman, que “Os cânones da narrativa […] não podem ser totalmente diferentes”. Segundo Shippey, eles não podem ser totalmente diferentes, mas podem muito bem ser, por se tratar de mídias e linguagens distintas, substancialmente diferentes. De todo modo, a crítica do autor da Terra-média acabou servindo de cartilha sobre o que não fazer nas adaptações de O Senhor dos Anéis — não sem antes aparecerem outras tentativas malsucedidas.

O Senhor dos Anéis (1978) – Wikipédia, a enciclopédia livre

Zimmerman acabou não levando a produção a cabo, não se sabe se foi por falta de apoio financeiro, ou se foi devido às críticas de Tolkien. Mas outras produções fílmicas antes de Jackson aconteceram. Ralph Bakshi fez um filme de O Senhor dos Anéis em rotoscopia — que conjuga cenas com atores reais com sobreposição de animação às imagens filmadas — em 1958, que trouxe forte rejeição da crítica e dos entusiastas da obra literária. Além de uma série de problemas técnicos, o filme não finalizava a narrativa, parando em as Duas Torres, por questão de direitos autorais.

Em 1980, a produtora Rankin/Bass, que já havia feito uma animação de O Hobbit em 1977, fez um filme musical animado de O Retorno do Rei para televisão, mas ela também não obteve muito êxito com o público e com a crítica. O fiasco dessas produções (ou a tentativa delas) fez com que se acreditasse não ser possível filmar uma obra como O Senhor dos Anéis. Mesmo porque Tolkien já comentara em seu ensaio Sobre Estórias de Fadas (1939) que a fantasia ficava a cargo das palavras e não das imagens.

Isso nos leva a questionar o porquê de Jackson ter conquistado tal façanha, ao receber a aceitação da maior parte do público. Um dos motivos é o auxílio da tecnologia — esta tão criticada, embora nem sempre vilipendiada, por Tolkien. Alguns anos antes da produção de O Senhor dos Anéis, Jackson e Fran Walsh se entusiasmaram com as imagens geradas por computador (siga CGI em inglês) e aplicaram efeitos especiais na película Almas Gêmeas (1994).

Ask About Middle Earth — John Howe and Alan Lee's Views on Peter Jackon's...
Alan Lee e John Howe

A computação gráfica contribuiu para que os elementos fantásticos ficassem mais verossímeis para o espectador, e ela foi certamente uma grande aliada do cinema de fantasia, mas não é a única que merece as láureas pelo sucesso dos filmes. As paisagens da Nova Zelândia; o processo de roteiro tão certeiro, sabendo o momento e a hora de “mostrar e não contar”, com foco na trama principal — a jornada dos Portadores do Anel —, atrelado à importância dada ao livro, sempre presente nos sets de filmagem na mão da produção e dos atores; a preparação do elenco; o exímio cuidado com a direção de arte, contando com os já renomados artistas como Alan Lee e John Howe; a inspiradora trilha sonora composta de Howard Shore; a preocupação com os mínimos detalhes de figurino, maquiagem, fotografia, cenários, entre outros, compõem essa orquestra de atributos para o aclamado resultado final.

Mas nem tudo são flores, e o filme recebeu também críticas negativas, uma delas, sem dúvidas, doeu mais em Jackson e companhia: a resposta repulsiva de Christopher Tolkien. Em 2012, ele disse ao jornal francês Le Monde: “Eles arrancaram as vísceras do livro, tornando-o um filme de ação para jovens entre 15 e 25 anos […] A comercialização reduziu o impacto estético e filosófico da obra a nada. Há apenas uma solução para mim: Virar meu rosto para outro lado”.

Com ou sem a aprovação do herdeiro do espólio literário do autor, os filmes de O Senhor dos Anéis foram um sucesso na bilheteria e na crítica, gerando uma receita bilionária e recebendo diversos prêmios dentre Oscar (com 30 indicações nos três filmes, recebendo ao todo 17 estatuetas), Bafta e Globo de Ouro. O seu legado marcou a história do cinema, sendo um paradigma não só para os filmes de fantasia, cada vez mais presentes nas telas, mas para os amantes da sétima arte com um todo.

No dia 9 de dezembro, fizemos uma live no canal Tolkienista, que você pode conferir aqui:


Obras consultadas:

CASAGRANDE, Cristina. A Amizade em o Senhor dos Anéis. São Paulo: Martin Claret, 2019.
KYRMSE, Ronald. Explicando Tolkien. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
SHIPPEY, Tom. The Road to Middle-earth. Londres: Harper Collins Publishers, 2005.
THOMPSON, Kristin. Film Adaptations: Theatrical and Television Versions. In: LEE, Stuart D. A Companion to J.R.R. Tolkien (Ed.). Malden: Wiley Blackwell, 2014.
TOLKIEN, J.R.R. Árvore e Folha. Tradução: Reinaldo José Lopes. Rio de Janeiro: HarperCollins, 2020.


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Cristina Casagrande é jornalista, escritora, tradutora e pesquisadora em literatura tolkieniana

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