A tradução de Otavio Fatica na Itália: como chegamos a isto?

Por Giuseppe Scattolini.
Tradução: Erie Neves
Revisão: Maurício Ieiri


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Este texto representa a opinião de seu autor, Giuseppe Scattolini, que gentilmente aceitou o convite de escrever em nosso site. O tema ficou a critério da livre escolha de Giuseppe, e seu conteúdo não necessariamente expressa a posição do site Tolkienista. Entendemos que, para termos uma visão mais clara da questão, precisaríamos de um conhecimento maior da língua e do contexto histórico-cultural do país envolvido. Ademais, acreditamos que seria necessária uma pesquisa mais aprofundada e objetiva para podermos nos posicionar criticamente quanto a essas questões tradutológicas das obras de Tolkien na Itália. Agradecemos a confiança de Giuseppe e seus colaboradores, Erie e Maurício, e colocamos o site sempre à disposição desses nossos amigos italianos. Cabe acrescentar que, caso haja o interesse de uma contribuição, respeitosa e amigável, ao debate, por parte dos atuais tradutores italianos, deixamos o site à disposição para o diálogo.


Desde 2018, estamos sofrendo uma situação muito dolorosa e desagradável aqui na Itália. É desagradável porque estamos vivendo um agravamento no conflito entre várias realidades tolkienianas por motivos puramente ideológicos. A dor, por sua vez, é causada pela consciência de que os valores inerentes aos textos de Tolkien devem nos guiar a ser mais compreensivos, verdadeiros, honestos e sinceros: a literatura tolkieniana deve nos ajudar a ir contra o mundo, e não imitá-lo, se com “mundo” quero dizer a política, a guerra, o conflito, o egoísmo, a falsidade e a ideologia.

Para entender bem os eventos dos últimos dois anos na Itália, precisamos entender sua gênese. Não posso resumir o livro inteiro de Oronzo Cilli, Tolkien e a Itália, publicado pela editora Il Cerchio, porque seria uma missão que excede em muito os propósitos e espaços deste artigo. Assim sendo, me limitarei a dois tópicos desse livro, desejando-lhe uma próxima publicação em inglês também, dado o sucesso do livro Tolkien’s Library, do próprio Oronzo Cilli.

Como costumamos lembrar, eu e a princesa Vittoria Alliata de Villafranca em nossas conversas, sendo ela a primeira tradutora de Il Signore degli Anelli [O Senhor dos Anéis] na Itália, “apenas o primeiro editor de Tolkien acreditava na beleza e no potencial desse autor”: Mario Ubaldini, da Editora Astrolabio. O primeiro volume da trilogia (dividido em três partes puramente por motivos editoriais — todos sabemos que é um livro “volume único”), La Compagnia dell’Anello [A Sociedade do Anel] foi publicado em 1967, em número reduzido de cópias, e não teve o mínimo de retorno esperado para que Ubaldini pudesse recuperar os custos e publicar os dois volumes seguintes. Então, ele foi forçado a vender os direitos à Editora Rusconi, que, com a revisão da tradução de Vittoria Alliata por Quirino Principe e a introdução de Elémire Zolla, enquadrou o texto na cultura da direita italiana dos anos 70, mesmo sem haver qualquer motivo político dentro dela.

Além disso, Tolkien nunca teve uma relação com o esoterismo e neopaganismo com os quais a cultura de Quirino Principe e Elémire Zolla, às vezes, era impregnada. Isso para não falar do tradicionalismo: em Tolkien, a tradição é muito importante e pode-se falar dela com “T maiúsculo”, mas seu significado em suas obras não é o mesmo da interpretação recebida naqueles anos e naquele contexto editorial. Anos que chegaram até mim na forma de histórias arrepiantes. Pessoas de esquerda, por exemplo, tinham que esconder a capa d’O Senhor dos Anéis, e outras, de direita, tinham que se contentar em seguir a linha de pensamento dos líderes do partido. A Itália era um país dividido pela cortina de ferro e pelo apartidarismo, um valor que o romance atraiu para si com a mera força de seu conteúdo.

Nessas poucas linhas, resumi uma história extremamente complexa e variada, mas a questão é que Tolkien na Itália sempre teve que avançar em meio a florestas de política, de ideologia, de carreirismo, do mero desejo de enriquecer e de ideias que o autor não partilhava. Começamos a sair desses “Pântanos Mortos” com a chegada dos filmes de Peter Jackson. Não  conversávamos mais sobre política, mas sobre o trabalho explícito do grupo Wu Ming, um coletivo de escritores italianos de extrema-esquerda que combinava o pior do antigo e do novo modo de conceber a luta política e ideológica da esquerda, e que tinha como objetivo declarado minar as pessoas da editora Bompiani — hoje detentora dos direitos das obras de Tolkien na Itália — que eram contrários à linha de pensamento deles.

No meio desses escritores, alinhados ou recomendados por eles, estão a Associazione Italiana Studi Tolkieniani (Associação Italiana de Estudos Tolkienianos – AIST) e o novo tradutor Ottavio Fatica. Encontramos também Federico Guglielmi (vulgo Wu Ming 4) membro fundador do AIST (quem recomendou Fatica para a Bompiani como tradutor), e Giampaolo Canzonieri, outro membro do AIST, como seu representante na revisão técnico-científica da tradução. Esta revisão teve como objetivo tornar a tradução de Fatica “o mais tolkieniana possível“, como declarado recentemente na Feira do Livro de Turim 2020 pelo presidente do AIST, Roberto Arduini.

Foi assim que nos disseram, com a tradução de Fatica, que recebemos de volta “o verdadeiro Tolkien”, entre aspas, porque um “verdadeiro Tolkien” não se vê numa tradução, mas sim na língua original. Contudo, esse não é o ponto: o significado de toda a operação foi a separação do mundo tolkieniano de seu próprio autor (Tolkien), precisamente porque todos aqueles que não gostam dessa tradução e dos métodos que a geraram são, na melhor das hipóteses, tratados como “torcedores de curva de arquibancada” pelo AIST. Somente membros e apoiadores do AIST estão autorizados a fazer críticas detalhadas e oportunas quando o tradutor cometeu alguns pequenos erros. Certamente, traduzir “Ranger” com “Forestale” [Florestal] não está entre esses erros, como diz Wu Ming 4, uma vez que teria sido feito um estudo “filológico” do termo Ranger, e esse estudo indicaria que “Forestale” é uma tradução ideal: é quase impossível pensar na Guarda Florestal quando o termo usado é “Forestale”, mas sim nos Caminheiros do mundo de Tolkien, aqueles “sem lar permanente”, porque o perderam devido a Sauron e as guerras com o Reino de Angmar.

Por outro lado, todos os italianos conhecem a elegância filológica de Wu Ming 4, graças à sua obra-prima Stella del Mattino (Einaudi 2008), em que Tolkien, um dos personagens, é representado, na imaginação do autor, como uma pessoa com problemas mentais, que faz xixi nas calças — aliás, Fatica, em Le Due Torri  [As Duas Torres], traduziu “they could hear it tinkling away” como “ouviam-no mijar” —, que tem alucinações e, mais do que um grande filólogo, ele parece um paciente psiquiátrico, que, em vez de escrever histórias, deveria usar drogas e ser tratado em hospícios e não nas salas de aula da universidade. Por outro lado, diz Wu Ming, a inspiração para o Anel do Poder teria vindo a Tolkien de T.E. Lawrence, mais conhecido como “Lawrence da Arábia”. Tudo isso sobre o Professor não me parece nada além de uma caricatura ruim de um intelectual amaldiçoado, o que Tolkien não era.

Nem mesmo sua esposa Edith Bratt escapa ao absoluto desrespeito do neomarxista Guglielmi, pois, para ele, o casamento de Tolkien com Edith é representado, sem fundamento e sem respeito a eles e à privacidade deles, como extremamente problemático e conflituoso, devido à fé de Tolkien e à sua loucura explícita. Lembro a vocês que a primeira edição da coleção monumental de Hammond e Scull The J.R.R. Tolkien Companion and Guide foi publicada um ano antes do Stella del Mattino e parece que Wu Ming também não levou em consideração a biografia clássica de Carpenter. A Edith de Wu Ming, de fato, fala do Sacramento da Confissão como uma prática medieval e, em um certo momento, também parece ameaçar se divorciar do marido se ele não procurasse tratamento.

Deixo as outras considerações sobre este livro em um artigo de Oronzo Cilli em seu blog “Tolkieniano”, neste link. Mas nem mesmo Ottavio Fatica, o novo tradutor d’O Senhor dos Anéis na Itália, se afasta de Wu Ming 4. De fato, no Tolkien Lab de Fevereiro de 2020, em Modena, ao mesmo tempo em que Fatica mantinha distância de Wu Ming (presente ali no evento), ressaltando que foi contratado pela Bompiani e não por ele, também não divergiu muito das posições de Ming. Aliás, o evento é organizado pelo Instituto Filosófico de Estudos Tomísticos, do qual Claudio Antonio Testi é o presidente, sendo também membro fundador e ex-vice-presidente do AIST. Aqui, Fatica disse que havia traduzido o “Rangers” com “Florestali” [Florestais] porque o leitor inglês, ao ler Rangers, pensa no Walker Texas Ranger de Chuck Norris ou no Power Rangers, e não nos Caminheiros do Tolkien.

O termo Rangers, de acordo com Fatica, é incompreensível para o leitor inglês nativo; portanto, deve ser igualmente incompreensível para o leitor da tradução. Um dos critérios principais da nova tradução é, de fato, a incompreensibilidade do texto, que é ainda mais incompreensível porque está cheia de termos em dialetos regionais e que, portanto, nem sequer são “italianos” no sentido da palavra. Esse critério é contrário ao escolhido pela tradutora anterior Vittoria Alliata, que propõe uma compreensibilidade absoluta e imediata da tradução, além de sua musicalidade. Essa musicalidade está quase ausente na tradução de Fatica. Um exemplo se vê quando, na nomenclatura com as indicações para tradutores, Tolkien fala sobre sua tradução de Imladris como Rivendell. Tolkien relata que privilegiou a musicalidade do nome tanto e talvez até mais do que o significado ou a “natureza filológica” da tradução, para usar um termo caro ao AIST. 

Ottavio Fatica, ao centro, na Feira do Livro de Turim. À direita, Roberto Arduini.

No entanto, esses não são os problemas mais graves da tradução de Fatica. De fato, em sua tradução, ele coloca não apenas os regionalismos mencionados, mas também arcaísmos, o que é absolutamente correto se ele não o tivesse feito com um critério oposto ao estabelecido novamente por Tolkien na carta 171, no qual afirma explicitamente que não é colocando palavras obsoletas que um texto se torna arcaico: isso é exatamente o que Fatica fez, colocando aqui e ali termos arcaicos italianos, sem um critério, mas apenas como “embelezamento” da tradução, como se fosse piscar para o leitor dizendo “veja como eu sou bom em usar dicionários?”

Esse é exatamente o significado da natureza filológica da tradução de Ottavio Fatica, tão elogiada por seus revisores da AIST: a experiência em consultar dicionários de italianos. O mais consultado foi especialmente o de sinônimos e antônimos, que foi financiado com os milhares de rendimentos da mesma coisa: barranco, colina, vale, penhasco etc. O Théoden de Fatica fala exatamente como Tolkien disse que não deveria falar, e o estranho é que as Cartas de nosso autor foram recentemente traduzidas novamente por Lorenzo Gammarelli, também membro do AIST. Foi esse um lapso de memória daqueles que deveriam trazer uma tradução “o mais tolkieniana possível”?

O Senhor dos Anéis, na tradução de Ottavio Fatica, publicado pela Bompiani.

Em relação à tradução de Ottavio Fatica, devo mencionar apenas algumas outras coisas. O novo tradutor, por exemplo, utiliza termos perfeitamente italianos, como procacciare [ir à caça, procurar comida], no capítulo “O Abismo de Helm” em As Duas Torres, mas com um significado diferente do habitual. Quando nós, italianos, dizemos procacciare, imediatamente pensamos em comida. De fato, procacciare de acordo com o prestigioso vocabulário Treccani significa “procurar caçando”. Fatica escreve que “la sortita sulla Rocca aveva procacciato solo una breve tregua” [o ataque de surpresa na fortaleza havia conseguido apenas uma pequena pausa]: é também dessa maneira que o tradutor coloca o leitor em dificuldade, inserindo termos com um certo uso, mas dando-lhes um significado muito diferente do que é. “Esquisitices” semelhantes, se quisermos chamá-las assim, são a presença de aprimoramentos, como daffare [muito o que fazer, trabalho], que eu nunca vi em uso comum em vez da fare [fazer], e “i rinforzi che incalzano aumentando le fila degli attaccanti al Fosso” [os reforços que continuam a aumentar as fileiras dos atacantes para o Abismo]: incalzare adquire um significado oposto ao esperado, ou seja, colocar os atacantes em dificuldade com a chegada dos ajudantes dos defensores, enquanto o oposto acontece.

Não posso deixar de mencionar o termo palpeggiare [tatear], que, segundo Treccani, é usado por Fatica em seu significado menos comum de tastare [sentir], mas que atualmente não é um simples tatear, mas “accarezzare, toccare il corpo di una persona, e soprattutto alcune sue parti erogene, per provocare o provare eccitamento sessuale” [“acariciar, tocar o corpo de uma pessoa, especialmente algumas de suas partes erógenas, para provocar ou experimentar a excitação sexual”, segundo Treccani]. Dessa maneira, Fatica chega à indignação: aqueles que não conhecem Tolkien e lerem O Senhor dos Anéis pela primeira vez pela sua tradução, verão que “la prima cosa che vide fu Gollum che, così gli parve, “palpeggiava il padrone” [a primeira coisa que viu foi Gollum que, pelo que parecia, “apalpava o mestre”]. Estamos nas escadas de Cirith Ungol, quando Gollum, voltando do covil de Laracna, tem um remorso de consciência. É um dos momentos cruciais de O Senhor dos Anéis, e Fatica, com seus refinamentos, o arruína, fazendo com que o neófito não leia o que realmente está acontecendo, e sim que Gollum acaricia Frodo tateando suas partes íntimas para seduzi-lo.

O arrependimento de Gollum é transformado em excitação sexual pelo uso ansioso de dicionários em busca de termos e significados que nem mesmo os leitores mais preparados sabem: o que Sam vê de fato é uma das patas de Gollum que tocam seu amado mestre: literalmente e, dado o contexto pawing at master (assim no original), significa que ele colocou as patas no mestre para roubá-lo ou ferir-lo. E ninguém além de uma pessoa simples como Sam poderia ter pensado, naquele momento, giù le zampe dal padrone [tire as patas do mestre], dada a sua falta de confiança em Gollum.

Em vez disso, o que não é bizarro, mas um erro, e também sério, é o uso do indicativo em vez do subjuntivo: na Itália existe um grande debate e preocupação com a perda de riqueza de nossa língua devido ao fato de que no lugar de muitos tempos verbais há uma tendência crescente de usar o indicativo imperfeito, e infelizmente essa é uma das coisas que Fatica faz muitas vezes. Essas são coisas que escapam, mas, nesse momento, nos perguntamos onde está o editor da Bompiani que deveria ter corrigido essas coisas, sem mencionar o revisor cuidadoso Giampaolo Canzonieri que, embora essa não seja sua tarefa, sempre alegou ter relatado os erros que viu. Um pequeno exemplo: sempre em “O Abismo de Helm” Fatica traduz “Preso commiato, tornò sulle mura e ne percorse tutta la cinta, incoraggiando gli uomini e prestando aiuto ovunque l’assalto imperversava.” [saiu, retornou às muralhas e percorreu toda a parede, incentivando os homens e ajudando onde quer que o ataque ocorresse]. Aqui, o indicativo imperfeito imperversava está incorreto, porque deveria ter sido utilizado o subjuntivo imperversasse. Para aqueles que amam a gramática e a riqueza expressiva de uma língua como Tolkien — e o que, na minha opinião, deveria ser para um tolkienista ou mesmo qualquer outra pessoa — os olhos dele sangram enquanto lê.

Não sendo capaz de lidar com todos os assuntos com a devida amplitude, cito parte de uma fala de Francesco Cotrona na nossa Rádio La Voce di Arda, que não faz parte de nenhuma realidade tolkieniana, mas, como a grande maioria dos tolkienistas na Itália, não gostou do resultado final da nova tradução. Ele afirma que há em geral,

uma atitude de suficiência, de arrogância. Os críticos são tratados, mesmo aqueles que argumentam, com descuido apressado. […] Que a operação de AIST e Wu Ming em Tolkien seja ideológica nem é um mistério, porque um dos principais objetivos dos Wu Ming, claramente declarado em um post de 2017, foi, e aqui o leio literalmente, “minar a posição de cariátides que poluíram os poços por décadas, associando a poética de Tolkien à de seus pensadores favoritos com uma cínica operação ideológica”, onde os pensadores são Julius Evola e a sua companhia de “canto”. Em um post de janeiro de 2020, eles festejam dizendo “os neofascistas de várias ordens e notas”, sempre textuais, “acostumados a décadas a considerar Tolkien deles mesmos, hoje ficam chocados ao ver tudo isso”, que é a operação que os Wu Ming estão conduzindo, “eles gritam, conspiração “neo-comunista” ou “maoísta” […] e reclamam que foram privados de sua primazia nacional sobre o autor.
Mas pode-se perguntar o que uma tradução tem a ver com ideologia. É que Wu Ming, a meu ver, quer controlar o texto. Não deve importar como um determinado grupo social interpreta o texto, desde que cada um tenha liberdade para interpretá-lo como bem entender. O objetivo aqui é impor uma interpretação aos outros e isso é mais fácil se você tiver controle sobre o texto e ninguém puder tocá-lo e modificá-lo. Se sua versão for a única versão válida ou existente, você terá algum controle sobre a interpretação. Sinceramente, nunca tive a impressão de que os fascistas estavam no controle do texto. Talvez no sentido acadêmico, eu não sei, mas também não me parece ser decisivo. O texto é amado por milhões de pessoas na Itália, de todas as orientações políticas, pelas mais diversas razões. Nos trinta anos desde que li pela primeira vez O Senhor dos Anéis e eu fazia parte dos fãs, nunca percebi que este era um livro de fascistas ou para fascistas.
Eu vejo essa tradução como uma das etapas necessárias para expulsar alguém que já teve de lidar com Tolkien na Itália até agora, para obter a hegemonia interpretativa do texto. Eles estão fazendo a mesma coisa de que acusam os fascistas, apenas que, se eles o fizerem, então estão certos. Eles o ocultam por trás de uma seriedade acadêmica cada vez maior, uma ostentada adesão filológica ao texto que às vezes existe, mas geralmente não. Os Wu Ming estão felizes que a tradução antiga tenha desaparecido, eles escrevem no blog, falam sobre isso em tom triunfalista. Parece-me indiscutível que essas são as razões da arrogância incoercível com que tratam os críticos, mesmo os preparados, como cachorros vira-latas.
Defender sua tradução é defender sua posição ideológica, a meu ver. Nenhuma crítica é legítima, porque qualquer crítica ao trabalho de Fatica é uma crítica ao seu nobre trabalho. Para mim, o problema é uma tradução desleixada, não é um problema político. Provavelmente sou tão de esquerda quanto Wu Ming, e talvez um pouco mais. No entanto, procuro ser honesto: entre todas as razões que vêm à mente para refazer um texto, na minha opinião, as ideológicas estão entre as mais sujas. […] Discuti com vários, por exemplo, [a palavra] “undicentesimo” que considero um erro e isso me impressionou muito porque está na primeira linha do primeiro livro, logo no início. Undicentesimo? Na minha opinião, é um erro mastodôntico. Tolkien foi justificadamente buscar o termo eleventy-first (111) em sua raiz no inglês antigo; Fatica não tem uma razão filológica para fazer um cálculo em latim: “undecentisimus” significa nonagésimo nono. De repente, Bilbo tem 99 anos, não 111. Se ele realmente quisesse dar um sabor arcaico ao termo, poderia ter recorrido a “centundecimo” ou “centoundecimo”, que, no entanto, não existem em italiano, mas pelo menos não distorcem o significado. Mas não, “Undicentesimo” está certo porque “mais fiel ao texto”, segundo eles. Na minha opinião, o argumento deles é ilusório.

Pessoalmente, não tenho mais nada a acrescentar, exceto que atualmente a tradução de Vittoria Alliata foi disponibilizada em nosso país, pelo menos por um curto período de tempo, depois que a editora Bompiani foi forçada a retirar as cópias da tradução anterior do mercado. Isso aconteceu por pressão da própria princesa Alliata que, em janeiro passado, graças a uma carta na qual divulgou a todos os tolkienistas italianos que os direitos de sua tradução não foram pagos e que Tolkien é tratado pela Bompiani “como um tambor de detergente”. O valor divulgado por Vittoria Alliata e não desmentido pela editora para a renovação dos direitos é de 880 euros por ano para uma republicação de sua tradução “sob proteção”. Essas notícias foram negadas pela editora, mas não sabemos com certeza quem teria tido o controle dessa proteção, mesmo tendo a resposta já nas mãos como apresentamos acima.

De fato, na editora Il Cerchio di Adolfo Morganti, começou a vender os remanescentes da edição gold d’O Senhor dos Anéis, em três volumes, publicada pela Bompiani em 2007. Juntamente com essa boa notícia — pois, pelo menos por um tempo, os fãs de Tolkien poderão escolher entre duas traduções diferentes — veio um lado negativo, que é o estilo da campanha publicitária lançada pela editora Morganti: falando, entre outras coisas, da “justiça cultural”, trouxe de volta os tons de extrema direita usados nas décadas de 70 e 80 em nosso país, e que todos os italianos alegremente haviam deixado de lado. Esperamos que essa campanha de mídia ultratradicionalista de direita não cause uma reação em cadeia. Infelizmente, as premissas não são boas.

Gostaria de agradecer a Cristina Casagrande, uma amiga brasileira que me pediu para escrever um artigo para seu prestigioso site Tolkienista e a todos os Tolkieniani Italiani, a realidade que ajudei a conceber e a fundar, da qual eles fazem parte, além da associação que fundei e que presido, os Cavalieri del Mark, a Società Tolkieniana Italiana (STI), juntamente com muitos grupos não reconhecidos e entusiastas, simples e estudiosos, cujo mérito vai além do dos acadêmicos e alcança a amizade mais sincera, bonita e desinteressada, além do fato de que agora somos os únicos a não mencionar Tolkien com segundas intenções na Itália, ideológicas, políticas ou econômicas.

Em particular, pelas pesquisas e pelas dicas deste artigo, agradeço Costanza Bonelli, Paola Cartoceti, Rachele Loricchio, Francesca Montemagno e Enrico Spadaro, além do compromisso de Simone Claudiani em nossa Rádio La Voce di Arda, onde muitas intervenções instrutivas foram realizadas por nossos amigos acadêmicos nesta tradução. O conhecimento deles foi fundamental para este artigo, já que não sou tradutor ou filólogo, mas um simples filósofo e, privado de sua amizade e dos outros, Tolkien para mim seria um nome como outro nome qualquer.

Todo o meu trabalho tolkienista é dedicado, sobretudo, a três pessoas, o falecido Dante Valletta e os amigos Greta Bertani e Gianluca Comastri, sem os quais nada faria sentido. São as pessoas pelas quais vale a pena avançar, divulgando ao mundo inteiro os eventos tolkienistas em nosso país, a Itália, para os quais um dia, próximo ou distante, aurë entuluva, o dia ressurgirá.

Read it in English on the next page.


Giuseppe Scattolini é mestre em filosofia, apresentador da Radio La Voce di Arda e fundador do grupo Tolkieniani Italiani.
Erie Rizzi Neves, ítalo-brasileiro, formou-se em publicidade e marketing e colabora como editor e colunista para as Realidades Tolkienistas Italianas, Società Tolkieniana Italiana e Tolkieniani Italiani.
Maurício Ieiri é historiador e autor do romance Incursões. Depois de descobrir a Terra-média, mergulhou na leitura de toda a obra de Tolkien. Mora com esposa e filho em Presidente Prudente, onde trabalha em seu segundo romance.



3 thoughts on “A tradução de Otavio Fatica na Itália: como chegamos a isto?

  1. Hi guys, I write from Italy and I’ve (tried to) read this article. It’s totally wrong. It’s just a personal attack to the people who made the new translation. The message is really wrong, and it should be removed, because it doesn’t give useful informations.
    Personally I don’t like Fatica’s work more than the old translation, because he decided to change several names (after more than 50 years of popular culture about Tolkien’s literature it didn’t seem necessary) and some sentences aren’t “flowing” anymore, but it can be read without problems.
    This Scattolini writing is about everything else than the new book. 🙂

    1. Thank you, Giacopo, for your comment. As we wrote, this is not our opinion, we just gave the space to Scattolini write about Tolkien in Italy. We cannot evaluate the new translation in Italy because we don’t live there. Here, in Brazil, there are many discussions about new translations too and I can see how some of them can be totally unfair… But if you wish, our website is opened to another article showing the other side, as we put in our disclaimer. 😉

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